Aqui está a introdução do livro. Nos próximos dias, vou acrescentar mais dois capítulos, para dar um gostinho. Espero que gostem e que se interessem por ler o resto da história… Estou batalhando para colocá-la nas livrarias o quanto antes.
Eu não aprecio viajar.
Prefiro deixar isso para os aventureiros, coisa que não sou. Os aventureiros sabem aproveitar uma viagem: conhecem pessoas interessantes e descobrem lugares novos, entram em enrascadas, colecionam histórias para contar aos amigos e trazem os suvenires mais peculiares. Eu, não. Tudo o que consigo fazer, quando viajo, é sofrer com as más condições e incontáveis horas de transporte, o desconforto das pousadas e a péssima comida. Claro que se deve levar em consideração o fato de que sempre faço péssimas escolhas de condução, acomodação e alimentação.
Uma das minhas poucas motivações para viajar é a obsessão. Não pela viagem em si, mas por informações a que eu só teria acesso se deixasse o conforto da minha casa. Tenho várias, mas minha maior obsessão sempre foi saber tudo sobre Cira.
Se estivéssemos mantendo esta conversa pessoalmente, provavelmente você me perguntaria: “Quem é Cira?” Não se sinta ignorante por isso. Poucos já ouviram falar sobre Cira. Muito poucos.
Descobri Cira por meio de uma figurinha, dessas para colar em álbuns mal ilustrados e com textos incompletos. Figurinhas tinham o valor de dinheiro para as crianças, no tempo em que eu era uma.
Havia três maneiras de se acumular figurinhas: 1) Súplicas aos pais. 2) Trocas (quase) amigáveis. 3) Espólios das disputas de “bafo”. O bafo é um jogo em que os participantes batem, com as palmas das mãos em concha, sobre um monte de figurinhas, levando para casa aquelas que conseguem virar. Foi de uma dessas três maneiras – não lembro qual – que ganhei a figurinha de Cira.
Eu costumava perseguir outros tipos de figurinhas, mas aquela, que fazia parte de um álbum sobre lendas, exerceu um fascínio diferente sobre mim. A figurinha era simples. Não era daquelas autocolantes, que custavam bem mais caro. No verso, lia-se uma descrição da personagem: “Cira. Filha de uma bruxa e do cobra Norato. Diz-se que matou a princesa da grande cidade perdida e libertou os tatus. Em algumas regiões, conta-se que lutou contra um bando de lobisomens e que participou da guerra de Palmares, lutando ao lado de Zumbi”. O desenho era o que mais me atraía, mas não por seu valor artístico, que eu ainda não tinha experiência para avaliar. Mostrava uma mulher de pele muito branca, em trajes feitos de um reluzente couro escamoso, vermelho-escuro. Seus cabelos eram negros e balançavam ao vento. Seus olhos eram tão vívidos, curiosos. Estavam focados em algo fora da cena, desafiadores. Sobre o ombro esquerdo, um detalhe bizarro.
Uma caveira.
Com o passar dos anos, ganhei percepção suficiente para concluir que o fascínio da imagem vinha muito mais da força da própria personagem do que da qualidade do ilustrador. Jamais ganhei nenhuma outra figurinha daquela coleção, porque a editora que a publicou havia falido alguns anos antes. Solitária entre minhas outras figurinhas, aquela acabou se tornando a mais valiosa para mim. Eu a carregava sempre. Puxava-a para dar uma espiada, sorrateiramente, quando queria sentir aquela sensação quente, tão comum em pré-adolescentes. Cresci com aquela imagem e as frações de história que aquela figurinha continha assombrando-me.
•••
Toda literatura acerca de Cira já passou por minhas mãos. Na verdade, o que há para ser lido sobre ela são algumas citações muito ralas em alguns livros pouco confiáveis, dos quais não sobraram muitas cópias.
Por que teria de viajar para completar minha escassa, porém preciosa, coleção de informações? Porque restaram algumas fontes que não posso consultar apenas folheando páginas amareladas, cheirando a mofo. São pessoas. Bem… Uma ou outra é. Algumas vivem em minha cidade. Outras, obviamente, não.
Uma expedição de uma pessoa não-aventureira é muito enfadonha. Por isso, quero deixar bem claro que este relato não é sobre minhas viagens. Não é sequer sobre meu processo de obsessão.
Quero falar sobre Cira.
