Mudando

janeiro 10, 2011

Olá, pessoas.

Estou de mudança. Este blog, em breve, será desativado. Em seu lugar, o novo endereço: www.waltertierno.com

Com novidades, visual novo e outras surpresinhas. Quanto aos posts sobre animais e gatos, acompanhe, a partir de agora, o blog www.gatitus.com

Vejo vocês por lá!


Papo Fantástica ao Vivo 3

dezembro 18, 2010

Os participantes do “Papo Fantástica”, um podcast produzido pela galera responsável pela “Revista Fantástica” são Luiz Elhers (editor da Revista Fantástica), Alba Milena (do blog literário “Psychobooks”), Leandro Schulai (autor de “Vale dos Anjos”) e Felipe Pierantoni (responsável pela diagramação da revista e autor de “O Diário Rubro”). Recentemente, fui convidado a completar a trupe. As gravações ocorrem às segundas-feiras, via Skype. O primeiro programa em que participei teve Eric Novello (autor de “Neo Azul” e colega com quem já dividi o palco na “Fantasticon” de 2010) como convidado. O formato do podcast é esse: sempre um convidado do círculo literário, da internet, de editora etc. Houve um redirecionamento editorial do programa e, agora, com participação ativa do Luiz, está sendo chamado de “segunda temporada”. É justo. Afinal, de agora em diante, o convidado terá mais espaço do que os assuntos gerais, como era o formato anterior.

Regularmente, também é realizado o “Papo Fantástica ao Vivo”. Como o próprio nome diz, é um evento realizado ao vivo, com a vantagem de rolar em espaços bastante interessantes. Os dois primeiros foram na Livraria Cultura do Shopping Market Place. O terceiro, na biblioteca Virato Correa, onde também acontece a “Fantasticon”. Foi um evento especial. Não só pelo local emblemático para a galera que curte literatura fantástica, como também pelo convidado da vez: Silvio Alexandre, editor do selo “Novos Talentos da Literatura Nacional” da editora Novo Século. Para mim, foi particularmente emocionante, pois foi a primeira vez que participei lá na frente, junto com o resto do elenco. No dia, estavam o Schulai, a Alba e a Carol Chiovatto, que cuida da divulgação da “Fantástica” nas redes sociais.

O Silvio Alexandre também é organizador da “Fantasticon” e tem um currículo profissional em editoras que é difícil não admirar. Foi pioneiro ao trazer textos inéditos e novelizações de séries como “Star Trek” e, principalmente, “Arquivo X”. Também publicou autores como Orson Scott Card e Robert E. Howard, entre outros e envolve-se constantemente com trabalhos em quadrinhos. Contra, tem minha desconfiança de que ele fala “klingon”. Ele nega. Espero que saiba que, além disso, também o infernizarei com piadas sobre a negativa em dizer quando se formou em Letras pela USP.

Silvo também tem muitos conselhos valiosos e os compartilhou com quem teve a sorte de comparecer ao evento. Deu uns toques para autores iniciantes, deixou clara a posição dos editores e das editoras no recebimento de originais e defendeu a posição de autores que acabam tendo que produzir suas obras. Essa é uma posição delicada, não só para os editores, como para os autores. Não vou entrar nessa polêmica agora. Prefiro concentrar-me em algumas sugestões que autores iniciantes deveriam prestar atenção:

- Apresentação de originais: Você não precisa mandar encadernar seu livro em capa dura, com fios de ouro, para impressionar os editores (Ok, o Leandro Schulai chegou perto mas, ao menos, demonstrou esmero. E o que fez diferença mesmo foram os bombons que ele enviou junto com o original. Toque de gênio. Não tentem imitar, porque a ideia já foi usada). Também, não é por isso que você vai enviar um original todo rasurado, com as folhas soltas ou presas por um elástico, sem numeração… Um pouco de capricho não vai te matar. Coloque letras legíveis, como a “Times” (de preferência) ou “Arial”, em tamanho razoável: 12 (preferencialmente) ou 11. Mande encadernar com espiral e acrescente uma carta de apresentação, dizendo sobre o que trata a sua obra, qual a intenção dela e um breve resumo. Seja sucinto nessa carta. E nunca, jamais, em hipótese alguma, deixe de colocar seu nome e forma de contato, tanto na carta quanto no próprio original. O envelope enviado é a primeira coisa jogada fora!

- Cuidado com o texto: O Silvio indicou a utilização de leitores críticos profissionais. Afinal, confiar na opinião de amigos, parentes e até professores da faculdade é um erro. Quando e se o seu livro sair, será examinado por pessoas que não fazem parte de seu círculo de relacionamento e, portanto, não terão o menor pudor em apontar os defeitos do seu trabalho. Melhor saber o que pode dar errado antes de imprimir ou mesmo enviar seu trabalho às editoras. Lembre-se que os editores só o lerão uma vez. Mesmo que você corrija todas as bobagens e reenvie à mesma editora, o cara que vai avaliar já tem o seu nome e o nome da sua obra marcada em uma planilha e vai dispensá-la sem se importar se você a transformou em uma obra-prima. O motivo é simples: as editoras recebem uma média de 15 originais POR DIA para avaliação. Outra dica importante: revisão é feita por revisores profissionais. Não passe para o seu professor de gramática. Busque ajuda profissional! É uma fase do processo mal reconhecida e de suma importância.

- A avaliação: Silvio Alexandre não perdeu tempo com respostas condescendentes, o que foi ótimo. Ele abriu o jogo e disse que a avaliação do original acontece com uma leitura dos primeiros capítulos, seguida de uma olhadela nas páginas seguintes, só para conferir se ocorre alguma bizarrice. A maioria dos originais é descartada logo de cara. Portanto, e faço coro na afirmação, tomem cuidado com o início de seus livros, por razões óbvias. Não é só o editor que você tem que conquistar. O leitor, também!

Houve bastante interação do público e sorteio de vários livros e brindes. A Novo Século enviou bastante coisa para sortear. Eu levei um livro e uma caneca. O livro foi para uma fã de literatura fantástica, a Denise, que é agrônoma e ecologista e que presta serviço cuidando de bichos de estimação. A caneca foi para uma figura que estava por lá, cambaleante e eufórico… provavelmente, sem saber bem onde havia entrado. Embora não tenha gostado muito do presente, pediu a todo mundo que assinasse a caixa e desconfio, pelo aroma alcoolizado, que vai utilizar bastante a caneca.

Conheci e troquei livros com Alfer Medeiros (“Fúria Lupina”), Bianca Briones (“Entre o Amor e a Amizade”) e Mare Soares (“Chantilly”). Havia também algumas representantes da blogosfera, como a Daniele Vintecinco (“Olhos de Ressaca”) e a Priscila Braga (“Bookaholic”) e a Tata (“Psychobooks”).

O próximo “Papo ao Vivo”, ao que tudo indica, não acontecerá em São Paulo. O local exato ainda será revelado, mas vai acontecer em uma loja da livraria Cultura. Eu, provavelmente, não estarei presente fisicamente mas, se for possível, darei meus palpites não solicitados via Skype.

Enquanto isso, acompanhe o “Papo” gravado. Valeu!


Mudanças

dezembro 14, 2010

 

Somos todos únicos. Igualmente diferentes. Não poderíamos escapar da sina de ter várias particularidades comuns a todos, poderíamos?

Igual a todos, sob um ano de mudanças, pressão e tensão, chega um momento em que é preciso parar tudo, retrair e analisar. Para mim, 2010 foi um ano sob mudanças, pressão e tensão. Não foi proposital. Pelo menos, não conscientemente.

Para começar, em janeiro, abandonei uma empresa que teria julgado promissora e pela qual havia trocado a Jimenez, agência em que trabalhara quase dez anos. Felizmente, fui recontratado e ganhei folga financeira para a segunda realização do ano: “Cira e o Velho”.

Trabalhei nesse livro durante um bom tempo. Alguns anos, na verdade. Durante 2009, havia enviado o texto para diversas editoras e a única a responder positivamente foi a Giz Editorial. Vale dizer que não foi para bancarem a edição, mas eu nunca tive pretensões a esse respeito. O mercado literário está cada vez mais difícil. Quem é louco em apostar em um livro com lendas e história nacionais quando vê as vendas vampíricas, angelicais, élficas, dragonescas, britânicas ou nórdicas? Tenho a meu favor – falsa modéstia, agora, seria hipocrisia – a qualidade de meu texto e o trunfo de cada leitor que se arrisca ser surpreendido pela proposta e estética de Cira. É uma luta árdua, mas não exige mais do que muita paciência.

Em novembro, Catarina veio ao mundo. Já escrevi um post sobre o início de minha aventura paterna. Não pretendo me repetir. Cabe apenas dizer que a vida muda muito. Hoje, não tenho dúvidas sobre o que é ser feliz e muito sortudo.

No começo de dezembro, a grande decisão, que vinha adiando há algum tempo: Mudar a carreira.

Pretendo não trabalhar mais de forma tão direta no ramo publicitário. “Freelances”, ilustrações e afins, claro, serão procurados e bem-vindos, mas tentarei com todas as forças manter-me longe da rotina contratada de agência ou marketing. Veremos se consigo.

Podem ver o turbilhão que foi meu ano? Não é de se espantar que agora, perto do final, eu precise recolher as armas. Os sinais já estão ai: Emito opiniões que não foram solicitadas, irrito-me com tolices banais, intolero a mediocridade. Espero não permanecer nesse estado o tempo suficiente para destruir qualquer amizade, seja nova ou velha. Cabe, aqui, pedir aos que convivem comigo: tenham paciência. Em poucos dias, voltarei ao meu normal.

Aproveito para agradecer aos que estiveram presentes em minha vida nos momentos mais necessários, aos que ofereceram bons conselhos e aos que contribuíram da forma que lhes foi possivel. Meu amor por minha família continua inabalado e isso é muito mais do que almeja a maioria dos homens que se consideram felizes.

2010 acaba, para mim, como um marco. Vejamos o que reserva 2011.


Papo Fantástica ao Vivo 3

dezembro 7, 2010

 

www.revistafantastica.com

O Papo FANTÁSTICA ganhou uma edição ao vivo que é um papo descontraído sobre literatura sempre com um convidado diferente.
O terceiro convidado será Sílvio Alexandre, que é o organizador do Fantasticon, Simpósio de Literatura Fantástica, e também editor da Novo Século, responsável pelo Programa de Novos Talentos.

 Presenças ao vivo: Leandro Schulai, Walter Tierno, Carol Chiovatto e Alba Milena (Psychobooks).
Presenças por skype: Felipe Pierantoni (RJ) e Luiz Ehlers (RS)
Convidado: Sílvio Alexandre

Temas abordados:

CRITÉRIOS DE ESCOLHAS DE ORIGINAIS – o que é necessário para a aprovação de um livro a uma editora?

LIVROS BANCADOS PELOS AUTORES X PELAS EDITORAS- Qual o melhor caminho para o autor nacional? Apostar em publicações sob demanda ou insistir na dura batalha por uma editora convencional.

MEIOS DE AMPLIAR OS LEITORES – como atingir uma parcela maior de leitores que necessariamente não estejam inseridos em eventos ou redes sociais de literatura. Existe esta separação?

Data: 11/12 (sábado)
Horário: 17 horas
Local: Biblioteca Viriato Correa – Sena Madureira
Rua Sena Madureira, 298
Vila Mariana – 04021-050
São Paulo, SP
Tel.: 11 5573-4017 e 11 5574-0389

 Venha participar!

 Revista FANTÁSTICA

www.revistafantastica.com

Psychobooks

www.psychobooks.com.br


Segundo Papo Fantástica – Convite

novembro 22, 2010

Neste sábado, dia 27 de novembro, a partir das 17h, vai rolar o segundo Papo Fantástica ao Vivo. É um evento organizado pela galera da revista Fantástica. Será na livraria Cultura do Shopping Market Place (ao lado do shopping Morumbi), aqui em São Paulo. Eu estarei lá, só para assistir, mas aproveitei a ocasião para avisar a livraria. Gentilmente, eles já pediram alguns exemplares de “Cira e o Velho”. Então, quem ainda não comprou, está ai uma boa oportunidade. Eu vou autografar os livros e entregar marcadores feitos à mão para quem comprar no dia. Terei mais uma surpresinha, mas não posso adiantar nada agora.

Então, marquem ai nas agendas:

2º Papo FANTÁSTICA AO VIVO

Posted by odiariorubro on November 21, 2010 at 8:24 PM  

O Papo FANTÁSTICA ganhou uma edição ao vivo que é gravada mensalmente na Livraria Cultura do Market Place no Murumbi em São Paulo. No próximo sábado, 27/11, estaremos gravando a segunda edição que contará com a presença de Leandro Reis, autor de Filhos de Galagah, o Senhor das Sombras e do inédito Enelock, todos pela Idea Editora.

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Compre pela LIVRARIA FANTÁSTICA ACESSE

Presenças ao vivo: Luiz Ehlers, Leandro Schulai, Carol Chiovatto e Alba Milena (Psychobooks).

Presenças por skype: Felipe Pierantoni (RJ) e Hugo Fox (GO)

Convidado: Leandro Reis

Vídeos enviados com perguntas: blog Muito Pouca Crítica (Mary Paixão – PE) e Me myshelf and I (Salatiel Júnior – DF)

Data: 27/11 (sábado)

Local: Livraria Cultura do Market Place  Murumbi – SP

Horário: 17 horas

Venham participar!

Leandro Reis

www.grinmelken.com.br

Me, myshelf and I – Salatiel Júnior

memybookshelfandi.blogspot.com

Muito Pouco Crítica – Mary Paixão

muitopoucocritica.com

Alba Milena

www.psychobooks.com.br

Categories: Eventos


O perigo da imposição

novembro 21, 2010

Procuro evitar o máximo que posso as frases: “Esse livro é obrigatório!”, “Você tem que assistir a este filme!”, “Como assim, você não conhece esta música?” ou outras imposições do gênero. Algumas obras possuem a virtude da universalidade, de expressar algo impresso na consciência coletiva ou são atemporais. Dai até a obrigatoriedade… há um longo caminho (que fique claro que estamos falando de obras de arte, não manuais de instrumentação cirúrgica)!

Digo isso para explicar minha postura sobre o preconceito a que “Cira e o Velho” acaba sujeita, por se tratar de uma obra que utiliza elementos do folclore nacional em um momento histórico real. Não é incomum eu escutar: “Não gosto de folclore brasileiro” ou “Não curto História”. É fácil render-me à tentação de considerar isso uma injustiça, de bradar que as pessoas têm que experimentar, dar uma chance e outras tolices do tipo. Querem saber? Não têm.

Seria uma hipocrisia sem precedentes se eu dissesse coisas desse tipo. Afinal, eu também quero ter o direito de dizer: “Esse assunto ai não me interessa.” (principalmente quando me oferecerem livros sobre vampiros ou, imensamente pior, auto-ajuda).

Tem curiosidade por “Cira e o Velho”? Agradeço. Não tem o menor interesse? Tenho a dizer que, se der uma chance, não vai se arrepender, mas sou suspeito. Veja a opinião de quem já leu, nos blogs etc. Mesmo assim, não se convenceu? Ok. Espero sinceramente que, no meu próximo livro, eu tenha a sorte de abordar um assunto que seja de seu interesse.

Basta tantas cobranças que sofremos diariamente. Não vamos trazê-las para nosso entretenimento.


Resenha no blog Livros e Bolinhos

novembro 20, 2010

Este é um blog com nome bem criativo. Essa resenha foi publicada em 19 de novembro:

 

Resenha: Cira e o Velho

Cira e o Velho
de Wlater Tierno,
Giz Editorial.

Cira e o Velho me ganhou pela capa. Logo de cara. A curiosidade foi tanta que tentei ganhar algumas promoções, mas a sorte não estava do meu lado. Não até o Walter Tierno, o autor do livro, me enviar um exemplar para resenha. Graças a isso pude perceber que meu grande erro foi ter me apaixonado pela capa… Deixei-a de lado para me apaixonar pela história.

Já no início somos apresentados ao narrador e seu fascínio pela figura e história de Cira. E tudo por causa de uma figurinha ganhada no bafo. Me permito uma pausa para dizer que sou uma apaixonada pelo Brasil a despeito de todos os problemas. Ter a oportunidade de mergulhar em uma história do nosso folclore de forma tão intensa e fascinante foi uma experiência incrível. Devorei o livro o mais rápido que pude.

Mas, voltando ao que interessa… Através da peregrinação de nosso narrador atrás de Cira vamos conhecendo personagens incríveis e histórias de cair o queixo. Cira é filha da bruxa Guaracy e de cobra Norato, um camarada nascido de uma índia. Ele e sua irmã gêmea, Maria Caninana, conseguiram escapar da morte que o marido de sua mãe impôs ao pegá-la amamentando duas cobrinhas.

Mas os irmãos seguem caminhos bem diferentes em suas vidas. Enquanto Norato se envolve e tem filhos com 14 amantes – das quais Guaracy é a favorita –, Maria Caninana desenvolve seu lado mais cruel [para não dizer cobra, hahaha] e faz um pacto com o Senhor das Mentiras para conseguir se vingar do assassino de sua mãe. Em troca? 28 almas – 14 de seus filhos e 14 dos filhos de Norato… E Cira seria uma delas.

O peculiar é que, antes mesmo de descobrirmos tudo isso, conhecemos o vilão da história, o paulista Domingos Jorge Velho. Escrúpulos? Zero. Ganância? Muita. Essa combinação nunca é boa – seja para os “mocinhos” ou para o próprio vilão.

E é justamente aí que mora o perigo. A prepotência de Velho é o estopim de seus futuros problemas e o “start” da verdadeira história. Graças à ela podemos conhecer melhor Guaracy – que vai até as últimas consequências para salvar a filha – e a própria Cira que, humilhada, violentada e morta só pensa em vingança. [Você não leu errado, ela morre... Mas quem disse que a Morte quer a alma dela?]

Tenho muito medo de continuar falando e dar muitos spoilers da história – apesar de que, no caso de Cira e o Velho, toda a graça está em como as coisas acontecem. Acho que deu pra deixar claro que o Paulista é o escolhido para matar Cira. Mas não sei se consegui deixar claro como Cira é tinhosa e difícil.

Nossa heroína (muitas vezes às avessas) é extremamente passional, impulsiva, cruel e, ao mesmo tempo, doce, paciente e muito querida. O problema é que seu desejo de vingança é mais forte que qualquer coisa e Cira faz de tudo para conseguir o que quer. Isso inclui matar pessoas, chorar a morte de crianças inocentes, viajar meses e meses com a jovem amante de seu pai e até se envolver na guerra de Palmares. Essa mesma, a do Zumbi.

Acompanhar as aventuras – e desventuras, por que não? – de Cira e Nhá pelas entranhas do país foi extremamente prazeroso. Não posso deixar de destacar as participações dos animais-reis (destaque maior ainda para Tatu e Gavião), dos ex-escravos quilombolas e do crânio de Norato que acompanha a filha em sua peregrinação.

Peço desculpas por não ser capaz de expressar de forma melhor o encanto que o livro causou em mim, mas vocês já sabem que sempre que gosto demais de algo fico assim. :P

Antes de me despedir preciso dizer uma coisa: que final! Sério, fiquei completamente chocada. Adorei, adorei! ;x

E juro que esse vai ser o último breve comentário: as ilustrações que fizeram eu me apaixonar pela capa seguem por todo o livro. Cada desenho do autor traz mais graça ainda ao livro. Muito talentoso. :)

Cira e o Velho é um livro para quem ama a cultura brasileira, para quem adora folclore, para quem curte muito literatura nacional, mas especialmente para aqueles que viram a cara para tudo isso. Se dê a oportunidade. Garanto que vai se surpreender e se encantar com Cira, dona Nhá, Norato, Guaracy, o Velho e toda uma infinidade de personagens bem construídos e cheios de aventuras, mistérios e dualidades.

OBS¹: Deixo registrado meu agradecimento especial ao autor. Walter, espero ter feito justiça a sua história fantástica. Realmente adorei e me senti honrada em lê-la. Muito obrigada. :)

OBS²: Quero agradecer também a fofa Alba, do Psychobooks, que leu a resenha antes de eu publicar. Muito obrigada, querida! Aproveito para deixar o link da resenha que ela fez do livro – minha favorita, aliás. Leia aqui.

Escrito por Juh Oliveto às 08:00

Entrevista para o blog Bookaholic

novembro 14, 2010

Continuando, aqui está a entrevista que fiz para o blog Bookaholic:

 

Bate Papo com Walter Tierno
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O convidado da vez para participar do nosso Bate Papo é o querido Walter Tierno, autor de Cira e o Velho. Jornalista, publicitário, desenhista e escritor ele respondeu algumas a algumas perguntas e vocês conferem logo abaixo! Senhoras e senhores, com vocês, Walter Tierno (que agora também responde como papai da Catarina :16 )

1) Walter, seu livro foi bem significativo pra mim porque alem da história ser conduzida de uma forma super interessante, trata de um tema que gosto muito mas que nunca imaginei que poderia virar um livro fantástico: o folclore brasileiro. Eu gostaria de saber qual sua relação com o folclore, que tipo de estudos e pesquisas você fez para escrever o livro?

Eu não imaginava, sinceramente, quando estava escrevendo o livro, que o fato de utilizar o folclore brasileiro seria recebido com resistência, preconceito e, por vezes, até com escárnio. Talvez as pessoas estejam muito presas às imagens marteladas em suas cabeças pelo sistema de ensino brasileiro, que não é nada atraente, para dizer o mínimo. Quando têm contato com meu livro, a primeira coisa que passa na cabeça das pessoas são seus trabalhos escolares com folha mimiografadas ou xerocadas, lápis de cor, cola e purpurina. Ou ainda os personagens de Monteiro Lobato no Sítio do Picapau Amarelo. Por algum motivo, ficou estigmatizado que lendas brasileiras são bobas, infantis e que só merecem destaque em livros paradidáticos. Uma pena.
Minha relação com o folclore é igual à de toda minha geração, acredito. Sou um típico nerd de quase quarenta anos de idade, que recebeu educação histórica e sociológica deturpada pelo regime militar ou seus adversários e teve fortíssima influência da cultura norte-americana. Se tenho alguma relação mais íntima com a cultura brasileira, provavelmente ela me foi passada por minha mãe, típica filha de imigrantes italianos que cresceu no interior e ouvia muitas histórias de assombrações…
A pesquisa que realizei para o folclore foi bastante restrita. Concentrei-me no trabalho de Câmara Cascudo e a alguns sites especializados na internet. Para a construção dos fatos históricos, aí sim, fiz uma pesquisa mais aprofundada. A bibliografia básica pode ser encontrada no site do livro (www.ciraeovelho.com.br/notas)

2) Qual seu personagem favorito do folclore? Se por um momento pudesse encontrar com ele e fazer uma pergunta, qual seria? E se você pudesse apresentar um outro personagem fictício para este primeiro, quem seria e por que?

Meu personagem favorito é, sem dúvida o Cobra Norato. Eu perguntaria a ele: Temos salvação?
A ele eu apresentaria um vampiro. Só pelo prazer de vê-lo matando o miserável.

3) Seu livro em alguns momentos mistura fantasia e realidade uma vez que você não criou um universo novo mas se apoderou de um fato histórico para desenvolver toda a trama em cima dele. Em alguns comentários no blog, vi observações do tipo “nossa, eu odeio história e nunca me interessei por folclore mas quero muito ler esse livro”. Como é para um autor ver que sua obra esta indo muito além do conceito de entretenimento de certa forma mudando conceitos e impressões sobre outras coisas.

Não é minha intenção levantar bandeiras. Seria uma hipocrisia imensurável. A intenção do livro é divertir e mostrar que é possível, sim, entreter utilizando elementos do folclore nacional, mas, principalmente, da história brasileira. Esta, liberta dos ufanismos, das mentiras e manipulações orwellianas, pode dar origem a romances sensacionais, sejam de fantasia ou não.

4) De um tempo pra cá tivemos um “boom” de blogs literários e muitos autores têm procurado estes veiculos para atingir seu publico especifico deixando que o blogueiro “venda seu peixe”. Você é publicitário, ilustrador e jornalista então definitivamente entende sobre mídias, divulgação e tudo mais. Gostaria de saber o seu ponto de vista como profissional da área de publicidade e como autor, como os blogs interferem positiva e negativamente na divulgação de um livro.

Na verdade, a utilização dessa mídia é totalmente nova para mim. Estou aprendendo. Felizmente, aprendo rápido… Os blogs são uma ferramenta importantíssima. Mas o que mais me atrai não é tanto o resultado. É a própria relação que se estabelece entre blogueiros e autores. Com blogueiros com quem fecho parcerias, acabam surgindo laços de amizade e isso é o mais bacana. Claro que existem casos e casos. Eu sempre analiso blogs que me procuram ou que são indicados. Existe, sim, muita gente por aí que só cria blog com a intenção de ganhar livro, e isso é muito chato. A linguagem dos blogs também é muito interessante. Enquanto na imprensa convencional existe uma película de imparcialidade e apresentação fria de fatos, os blogueiros são escancarados em suas opiniões e é isso o que os leitores querem. Querem saber como foi a experiência de pessoas parecidas com eles. Para se ter uma ideia, fui citado em uma matéria bastante generosa no Jornal da Tarde. Não resultou numa só venda de livro. Isso só aconteceu quando começaram a surgir as resenhas nos blogs.

5) Em certos momentos da história você pegou lendas conhecidas do folclore como Curupira por exemplo e de certa forma trouxe-os para nossa realidade; se a Cira viesse parar em São Paulo, como seria essa visita e ocupando um papel de guia turístico, onde você a levaria?

Cira é muito viajada e vivida… ela é que seria guia turístico e me levaria para cantos da cidade que nunca imaginei existirem.

6) Teremos uma continuação para Cira e o Velho? Está trabalhando em algum livro novo? Algo que possa nos adiantar a respeito?

Embora eu tenha o bom senso de fazer com que Cira e o Velho seja um livro independente, com começo, meio e fim, pretendo escrever outro sobre Cira. Estou no processo de pesquisa dos fatos históricos em que quero ambientar o livro. É um trabalho demorado. Paralelamente, estou trabalhando em outra história, esta é urbana e não tem nada a ver com Cira. Também tenho uma ideia para uma ficção científica, mas nem comecei o processo de pesquisa para essa história, então… vai demorar um bocado.

7) Cite três escritores nacionais e três internacionais que você admira. Que livro e/ou autor você acha que todos deveriam ler pelo menos uma vez na vida?

Nacionais: Erico Veríssimo, Jorge Amado e Eduardo Bueno. Internacionais: Frank Herbert, Bernard Cornwell e Neil Gaiman. Um livro que todos deveriam ler (embora não goste muito do termo “deveriam”) é “1984″, de George Orwell.

8) Você se considera um “Bookaholic”? Prefere ler ou escrever? Qual foi o ultimo livro que você leu e o último que comprou?

Sou um bookaholic… embora possa ser considerado muito mais como um “quadrinhoholic”. Prefiro ler, claro. Escritores leem mais do que escrevem, acredito. O último livro que li foi “1808″, de Laurentino Gomes, e o último que comprei foi “Necrópolis”, do colega Douglas MCT.

9) Sua filhinha acabou de nascer, então queria saber, que histórias e personagens você vai fazer questão de apresentar para ela durante a infância? Você acha que o hábito de leitura é algo que os pais introduzem nos filhos desde cedo ou é algo que simplesmente cada um desenvolve (ou não) sem influencia alguma?

Vou fazer Catarina se interessar por leitura através dos quadrinhos, como aconteceu comigo. Tenho até alguns álbuns de Asterix que guardei especialmente para ela. Claro que ela pode simplesmente ignorar isso e partir logo para livros… quem sabe o que o futuro reserva? O hábito da leitura não é realmente introduzido. Filhos de pais leitores leem porque as crianças imitam os pais. Não existe esse negócio de “faça o que digo, não faça o que faço”. Todas as suas atitudes influenciam muito mais seus filhos do que qualquer palavra. Felizmente, aqui em casa, eu tenho hábito de ler e minha esposa lê até mais. Então, é provável que Catarina se torne uma leitora voraz. Espero…

10) Muito obrigada pela participação Walter! Gostaria de deixar uma mensagem final aos leitores do Bookaholic?

Aos leitores: Deem uma chance ao que sai do lugar-comum. Aos autores: saiam da zona de conforto. Aos autores iniciantes: tenham mais paciência.


Resenha no “CK Books”

novembro 14, 2010

Dando continuidade à tarefa de reunir o que é falado sobre “Cira e o Velho” na internet e na imprensa, aqui vai a resenha que foi publicada no blog “CK Books”:

Resenha – Cira e o Velho – Walter Tierno

Olá, pessoas! Tudo bem?
Como vocês devem imaginar nós do CKS vivemos correndo atrás de promoções para ganhar livros que queremos muito. Normal! Que bookaholic não quer ganhar livros?
Numa dessas ganhei o livro Cira e o Velho do Walter Tierno. O autor geralmente faz sorteios de seu livro e produtos promocionais relacionados pelo Twitter.
Li o livro em três dias, graças às minhas aulas do pré-vestibular. Mas aqui está, enfim, a resenha! Mas antes, se intere um pouquinho sobre a história!

Sinopse:
”Cobra Norato é um amante da vida. Pelas margens dos rios, espalhou paixões, filhos e filhas. Uma delas é Cira, que nasceu do ventre da bruxa Guaracy. Sua alegria de viver é tão intensa quanto seu ódio pelo homem que a deixou para morrer: o Velho. Domingos Jorge Velho é um caçador de homens. Ele toma a liberdade dos índios e a entrega aos brancos de além-mar. É um guerreiro, sem outra fé além do ouro e da propriedade. Cira caminha pelo País que surge, que é desbravado e desmatado. Ela persegue o rastro de Domingos. Ela encontra o ocaso da magia e a ascensão da pólvora. Em Palmares, os inimigos se enfrentarão e, nessa guerra, se descobrirá quem é o proprietário do novo mundo.”
Fonte: Skoob – Cira e o Velho
A primeira vez que se li essa sinopse fiquei intrigada, no mínimo. Por Que um homem que teve tantos filhos ao longo das margens de rios tem uma filha que se destaca? O que Cira tem de especial? Como ela se vingaria de Domingos? Aliás, de onde eu já tinha ouvido aquele nome?
Querido leitor, Cira e Domingos são os protagonistas dessa história e não é sem razão. Entre eles há uma tensão, uma atmosfera de vingança além do que se possa explicar sem dar spoilers. (hahaha) Mas não vou colocar o carro na frente dos bois. Vamos por partes.
Há muito tempo eu, Rayana, não lia um livro de autor nacional com tanto gosto. Muito menos um que envolvesse FOLCLORE! Sim! Pasmem! Nesse momento em que vampiros, lobisomens e zumbis com suas histórias fantásticas vêm dominando o mercado literário, Walter Tierno encarnou Monteiro Lobato e resolveu mostrar que o Brasil tem muita coisa boa! Digo Lobato porque lembrei muito dos episódios do Sítio que eu assistia e ficava vidrada na Cuca, no Saci, no Boitatá.. Impressionante como nosso universo folclórico é rico!
Ao longo das 232 páginas do livro um narrador mostra seu interesse pela filha de Cobra Norato com a Bruxa Guaracy, nossa Cira. Ele percorre caminhos querendo saber da história dela, por onde andou, o que fez, quem conheceu e todo o mais. Já nas primeiras páginas eu já me via tão alucinada por Cira quanto o próprio narrador. A cada linha eu imagina os próximos passos e admirava o quão bem feita foi escrita e estruturada a narração.
Walter Tierno não poupa detalhes, nem em palavras nem com suas ilustrações. Usando o realismo fantástico ele te faz mergulhar no mundo encantador, apesar de triste, que é a história de Cira. Com relatos de várias personagens como Dona Nhá, Cobra Norato e um Padre, fui conhecendo a fundo a vida da guerreira.

O autor cuidou de cada ponto, desde o menor detalhe folclórico até a última ilustração. Com um traço muito bonito, as páginas te mostram personagens, cenas, personagens e te fazem sentir inveja dessa habilidade incrível que Tierno têm. (Inveja, mas com todo respeito! hahaha.)
Não importava o quão rápido eu lesse, mais eu queria. Virava as páginas vorazmente enquanto via a maldade de Velho ser disseminada até tocar Cira. Não foi aleatório. Toda a desgraça da história é motivada por Maria Caninana, tia de Cira. A mulher-cobra tinha inveja de seu irmão e queria vingança. Sim. A vingança é a motivadora do início ao fim. Primeiro Caninana, depois Cira, depois Velho e.. e.. Ah! Leia o livro!
Em meio a sentimentos como amor, ódio, amizade e companheirismo eu fui tomada e senti, bem dentro de mim, o prazer que dá ter um belo livro como esse em mãos. Lá pelo fim, quando eu me doía por saber que a história já estava acabando, Walter ainda fez mais revelações e reviravoltas! Ai ai! Meu coração bateu forte e minha boca não conseguiu ficar fechada. Para arrematar o cenário mais bacana foi PALMARES! Eu fiquei boba! hahaha. No fim, eu me apaixonei por Cira em toda sua beleza e força. Me apaixonei pelo carinho com que o livro parece ter sido feito.
Cira e o Velho é o tipo de livro que uma boa história se faz com criatividade e amor. Te faz ver que não se precisa abandonar a cultura nacional e, sim, valorizá-la! Parabéns a Walter por toda sua dedicação e talento! O livro está SUPER RECOMENDADO!
Quer saber mais sobre Cira?
Site Oficial
Skoob
Twitter do autor
Grande beijo! Espero que leiam o livro! Porque sei que vão gostar! ;)
Por Rayana Miccolis

Crônica de um nascimento

novembro 8, 2010

Há pouco mais de nove meses atrás, perguntei à minha esposa:

- Você não está mais usando anticoncepcional? – Não seria nada elegante dizer como notei esse detalhe.

- Não. Esse ano, vou engravidar.

Sou especialmente determinado e confiante em raras questões. Não era o caso da paternidade. Sempre tive um sentimento ambíguo sobre a questão. Não era um objetivo, tampouco um pavor. Não era desejada, tampouco seria repelida. Por isso, deixei a decisão a cargo de minha esposa. Comodismo? Indecisão? Preguiça? Não saberia dizer. Julguem minha atitude como bem entenderem.

Naquele dia, minha esposa anunciou que havia se decidido. Lá do alto da minha confortável posição de neutralidade, que mais eu poderia dizer?

- Tá bom  – respondi.

Algumas semanas depois, ela me acordou às cinco da manhã. Balançou a fita mijada do teste de gravidez e anunciou nosso triunfo reprodutivo. Seríamos pais.

Querem saber quando a informação assumiu a devida proporção na minha cabeça? Eu aviso quando acontecer.

No terceiro ou quarto ultrassom (não recordo em qual), a confirmação de um desejo da mãe: uma menina. Confesso que era uma preferência do pai também. Atirem pedras os pais e mães que não torceram na loteria dos gêneros.

Os tais nove meses passaram. Para minha egoista satisfação, minha esposa não engordou durante a gestação. O nascimento estava previsto para o dia 10 de novembro. Minha esposa é contra a futilidade que se espalha entre mães e médicos de agendar cesarianas quando o único motivo é a conveniência social de um dos dois. Assim, a data de nascimento de nossa filha seria determinada pela natureza. Afinal, a gestação correu sem problemas e a criança estava na posição correta para o nascimento.

Amigos, parentes, colegas e desconhecidos fizeram suas apostas. Uns disseram que a bebê nasceria no dia 6 de novembro. Outros, como eu, que mais torci do que adivinhei, apostaram no dia 31 de outubro (Haloween, imaginem que legal seria!). Alguns escolheram o dia 2 de novembro, Finados. Inclusive minha filha.

O dia do parto foi digno de uma temporada de “24 horas”:

9h00 - Minha esposa reclama de discretas e irregulares dores.

11h00 – Cozinhamos carne moída, brócolis, arroz e feijão. Minha esposa cronometra o espaço entre as contrações e a duração e percebe que são irregulares demais para ser um parto.

12h00 – Almoço. As contrações estão um pouco mais fortes.

13h00 – Com a frieza que lhe é característica, minha esposa pesquisa na web e encontra um site que tem um aplicativo para contar intervalos e duração de contrações. Continuam irregulares.

15h00 – Ela resolve ir para debaixo do chuveiro. Se for trabalho de parto “falso”, o banho revelará.

15h20 – A dúvida é descartada. A intensidade das contrações aumenta e o intervalo entre elas diminui. Decidimos ir para o hospital. Pego documentos aqui, largo coisas ali…

17h00 – Quando chegamos ao Hospital Santa Catarina (acreditem ou não, mesmo com minha esposa contorcendo-se dentro do carro, o taxista sugeriu nos deixar na calçada, no lado oposto ao hospital… que fica na avenida Paulista!), vamos para a recepção da maternidade. A esposa vai lá para dentro, onde uma incrédula enfermeira faz o exame de toque para constatar a dilatação. Arregala os olhos e ordena que encontrem o médico plantonista. Minha esposa chegou ao hospital com dilatação total, clamando por anestesia.

17h10 – Mesmo sem terminar os procedimentos legais, pulo pelo corredor, calçando as proteções dos sapatos e amarrando a máscara. Mal chego na sala a tempo de ver minha filha saindo. Não entendi muito bem por que há pais que desmaiam nessa hora. É um espetáculo da natureza (com perdão ao clichê). Acompanho a equipe pediátrica que faz os exames iniciais. A menina chora e grita.

18h – Sou chamado para dar o primeiro banho em minha filha. Gostaria de dizer que estava emocionado, choroso e que uma luz se abrira à minha frente. Mas a tensão da tarefa obscuresce todos estes sentimentos nobres.

19h – Estamos os três no quarto. Catarina (esse é o nome que escolhemos há meses para ela) mama pela primeira vez.

Isso tudo aconteceu no dia 2 de novembro de 2010, uma terça-feira. Na sexta, recebemos alta e pegamos um táxi para casa. O motorista, para nosso azar, além de tagarela – e não tenho forma mais elegante de colocar isso -, falava muita merda!

Chegada típica. Malas espalhadas, bagunça, fome, medo, cuidado com os gatos…

A rotina é reestruturada à marra. A disciplina, mesmo caótica, é imposta. A inexperiência se torna evidente. Tudo isso faz com que o cérebro demore um pouco a assimilar. Mas, dois dias depois, acontece. Olho para minha esposa - transformada pela maternidade -, olho para meus gatos – inicialmente deprimidos pelo abandono de três dias e, agora, brincalhões -, observo minha filha, que corre os olhos ao redor, com expressão curiosa, a boquinha chamando pelo peito que a satisfaz e finalmente percebo que somos uma família. Não sei bem o que significa isso… quando souber, eu aviso.


Ausência justificada

novembro 6, 2010

Meia dúzia de gatos pingados que acompanham este blog, peço desculpas pela minha recente ausência. É justificada. Acaba de nascer, mais precisamente no dia 2 de novembro, minha filhinha. Mas prometo retomar algum ritmo de postagem… no que for possível, claro.

Para começar, o resultado da promoção “Cira e o dia do Saci”.

As mulheres vieram com tudo: @soiracelestino, @kelly_amorim e @ @xtatolinax

Obrigado a todos que participaram. Os prêmios já foram enviados.


Resenha do blog Bookaholic

outubro 30, 2010

Esta resenha foi publicada no blog Bookaholic e foi escrita por Priscila Braga:

Cira e o Velho

Eu nunca fui o tipo “patriota” que sai pelas ruas carregando bandeiras e tudo mais. Mas se tem uma coisa que sempre me orgulhei em meu país, é uma parte bem especifica de sua cultura. Eu não estou falando do carnaval nem de futebol que são as primeiras coisas que falam quando citam o Brasil por aí; estou falando de algo muito mais rico: o folclore brasileiro. O Brasil possui um repertório de lendas e personagens de dar inveja em qualquer um que se atreva a falar sobre fantasia e faz de conta. Eu me lembro quando criança de ouvir histórias sobre a Cuca, o Curupira, a Caipora, o Saci, e tantos outros, mas eles eram muitas vezes coadjuvantes de uma trama qualquer. O pouco que estudei e aprendi sobre esses personagens, foi na escola ou através de livros que me aventurei a pesquisar por conta própria; um pouco talvez por ouvir falar por aí (afinal, mas melhores lendas são aquelas que você ouve e não sabe bem de onde veio…mas todo mundo conhece!) mas como fã de fantasia desde sempre, eles me encantavam… E eis que apresento a vocês Cira e o Velho. Eu nunca tinha ouvido falar da Cira até então, e me pergunto o porquê! A personagem é tão rica, tão fascinante que faz qualquer outro que se meta em sua história ser um mero detalhe. Se eu tivesse passado por ela simplesmente, uma mulher com trajes em pele de cobra e uma caveira no ombro certamente não chamaria minha atenção, mas depois de conhece-la… O fato de ter a escravidão e o Quilombo de Palmares como pano de fundo a trama também só enriqueceu a história (Zumbi? que Zumbi? Só me recordo da Cira…); garanto que da próxima vezes que você for estudar sobre a história do Brasil, o bandeirante Domingos Jorge Velho nunca mais será o mesmo depois que você conhece-lo pelos olhos de Cira, cobra Norato e Maria Caninana. E tenho que falar também sobre a arte do livro, sério, gente! Um ilustrador escrevendo um livro é uma coisa de doido! O livro é lindo, todo ilustrado pelo próprio Walter em desenhos incríveis! Diversas vezes interrompi a leitura e me peguei admirando as ilustrações. Não resisti e tive que scannear alguns para mostrar pra vocês porque são realmente maravilhosos! Ele me mandou também marcadores artesanais (desenhados a mão por ele mesmo) e alguns cards com desenhos e pequenos trechos do livro. E eu, que nunca tinha pensado que essas lendas e histórias do Brasil poderiam ser um livro incrivel de fantasia, e eu que nunca tinha ouvido falar sobre a Cira, sou “obrigada” a convida-los a ler Cira e o Velho, definitivamente um dos melhores exemplares de literatura brasileiríssima que li nos últimos tempos! A narrativa é uma delicia e a história é realmente fascinante, da primeira a última página! Recomendadíssimo!

A História

Cira e o Velho, conta a história da filha da bruxa Guaracy e do cobra Norato. Dizem por aí, que em determinados dias, Norato saía de sua forma de cobra e se tornava homem, e nessas ocasiões acabava por engravidar uma humana. A bruxa Guaracy foi uma dessas. Não qualquer uma porque era uma de suas amantes favoritas, a quem ele sempre voltava para visitar de tempos em tempos e dava uma atenção especial a menina Cira. Mas Norato, tinha uma irmã que era bem ruim, não vou descreve-la como uma “cobra” porque seria ironia demais da minha parte; mas metida em um pacto bem astuto, Maria Caninana sai por aí enfeitiçando e persuadindo homens a ajuda-la em seu plano de matar todos os filhos de seu irmão. Um desses homens que se colocam em seu caminho, é o bandeirante Domingos Jorge Velho, ou simplesmente, o Velho. Ganancioso como ninguém, a idéia de matar a troco de ouro e outras riquezas já fazia parte da sua rotina. O que ele não sabia, era que ele estava se metendo não com indíos e homens quaisquer, o sangue que ele derramava, em especial da menina Cira (que acaba sendo salva por um feitiço de sua mãe), era um sangue que despertaria a fúria de muita gente… em especial, do próprio Norato, e da Cira, que a partir daí assume um desejo cego por se vingar do Velho. Uma viagem incrível pelo folclore brasileiro com direito a encontros fantásticos com o Curipira e o MBoitata! Leiam Cira e Velho, mesmo porque, quem não ler (como o próprio Walter diz) a Cuca pega! :37

O Autor

Walter Tierno é ilustrador, jornalista e publicitário. Apaixonado por histórias em quadrinhos, animais, livros de ficção científica, fantasia e história. Walter vive em São Paulo, com a esposa, Veridiana, os gatos Titus e Sisko e a gata Jolie. Para saber mais sobre ele visite o site!

ETC …

Capa e Projeto Gráfico: ★★★★★
História: ★★★★☆
Narrativa: ★★★★☆
Skoob: Cira e o Velho
Site do Livro: Cira e o Velho
Twitter: @waltertierno
Autor: Walter Tierno
Editora: Giz Editorial

 

A Priscila é webdesigner e responsável pelo site da Revista Fantástica. Explicação para o site dela ser tão caprichado.


Novo Parceiro

outubro 24, 2010

Agora, “Cira e o Velho” conta com um novo parceiro: A Livraria Fantástica

As condições são as mesmas do site oficial de “Cira e o Velho”, ou seja, você recebe o livro na sua casa sem custo de frete, com assinatura e dedicatória e um marcador de página feito à mão.


Primeiro Papo Fantástico ao Vivo

outubro 19, 2010

No dia 16 de outubro, sábado, a equipe da Revista Fantástica realizou seu primeiro evento aberto ao público. Para isso, escolheram adaptar seu podcast semanal, o “Papo Fantástica”. Foi uma ideia feliz. A Livraria Cultura cedeu um belíssimo espaço em sua loja no Shopping Central Plaza (que fica ao lado do Shopping Morumbi).

Não foi o pior dia para se realizar o evento, mas houve alguns contratempos. Em primeiro lugar, o clima paulistano. Chovia no momento em que a maioria das pessoas deslocava-se para a livraria. O trânsito não estava nada convidativo. Eu, por exemplo, tive problemas para chegar no horário. Outro fator foi a concorrência com o evento “Festcomix” que é ansiosamente aguardado pelo público leitor de quadrinhos. E tem muito leitor de literatura fantástica que não perderia uma Festcomix. Na verdade, muito autor também.

 

 

Mesmo assim, a frequência foi respeitável. E o papo correu solto. Tanto que a hora programada para a discussão dos temas acabou se tornando duas!

O papo Fantástica é comumente realizado com a presença de um convidado. A vítima da vez foi Erick Sama, editor da Draco, editora especializada em literatura fantástica. A “equipe fantástica” era formada por: Luiz Ehlers, editor chefe da revista Fantástica e que falou diretamente de Porto Alegre, via Skype; o diagramador da revista, Felipe Pierantoni, que também participou via Skype do Rio de Janeiro; Leandro Schulai, autor de “Vale dos Anjos“; Alba Milena, do blog Psychobooks e a relações públicas da revista, Carol Chiovatto.

Os temas abordados foram:

1- A importância da leitura de obras clássicas na formações de autores e leitores (proposto por Dhyan Shanasa – GO)

Entraram em pauta vários pontos de vista. O Erick Sama defendeu que os autores têm obrigação de conhecer textos básicos e citou a Dialética de Aristóteles. Uma menina da plateia (peço desculpas por não ter anotado seu nome) surpreendeu os participantes dizendo-se fã de Machado de Assis. E ela só tinha 15 anos. Nessas horas, é inevitável cair nas discussões básicas: “o que é clássico?” “As crianças não gostam porque são obrigadas.” etc, etc. Particularmente, acredito que, paradoxalmente, os professores tendem a ser os piores incentivadores à leitura. Tentam empurrar nas goelas dos jovens obras que eles não estão preparados para absorver. Eu, ainda criança, aprendi a gostar de leitura através de livros divertidos, como os da coleção Vagalume e outros do gênero. Mais tarde, não foi tão sacrificante conhecer textos mais complexos.


2- Escolhas editorias – quais os critérios das editoras para a escolha de uma obra?

Erick Sama foi sabatinado sobre as razões que o levaram a escolher algumas das obras publicadas pela Draco. Entre elas, “Neon Azul”, sobre o qual já falei aqui, “O desejo de Lilith” e “Guerra justa”. Basicamente, Erick disse que procura originalidade nos trabalhos e ofereceu um conselho valioso aos autores iniciante: Entregar a obra mais acabada possível.

3- Qual a responsabilidade da editora da promoção do livro? (proposto pelos organizadores do Sobre Livros – PR)

Erick Sama deu uma resposta surpreendente. Ele defende que a divulgação do livro depende da editora. É o tipo de declaração que vai na contra-mão do que dizem editoras de tamanho semelhante. Mas a Draco funciona como uma exceção no mercado. É uma editora que produz “sobre demanda”, mas com recursos próprios. Assim, ao invés de receber o material de um autor que quer bancar o próprio trabalho, é a Draco que escolhe o que publicar e imprime pequenas quantidades.

4- Nomes de autores vendem livros?

Parece que a intenção da pergunta foi entender se os escritores estabelecidos podem amargar problemas com o mercado se deixarem a qualidade de suas obras cair ou se tentarem trabalhar em temas que nada têm a ver com aquele que os consagrou. Exemplificou-se a aposta de André Vianco no gênero policial. Pairam dúvidas se ele deveria arriscar outras veredas além do terror e fantástico que cementou sua bem sucedida carreira. Uma conclusão óbvia a que todos chegaram: Mesmo que um nome venda, se a qualidade da obra não for boa, não há fama que resolva!

5-Qual o impacto dos ebooks no mercado editorial? (proposto por Mariana do blog Psychobooks – SP)

Esse é um assunto constante em debates literários e, pelo que entendi, já foi amplamente discutido entre os integrantes da revista Fantástica (ainda não escutei todos os programas). Cabe aqui um conselho a eles: convidem Ednei Procópio para conversar sobre o assunto. Em meia hora, ele os fara ver essa tal “onda que vai acabar com os livros” de um jeito bem diferente.

Terminado o evento, foi hora de pagar minhas dívidas com a Alba e com a Carol. Afinal, um bom chantagista tem que cumprir sua parte.

Também troquei livros com o Leandro Schulai e fiquei até quase meia noite conversando com o pessoal.

Diversão garantida para quem gosta de falar sobre literatura, fantasia, cinema etc. Vale.

Pena que, por algum problema técnico, o programa não foi gravado e vocês não poderão conferir como foi.

Mais um motivo para não faltar, na próxima vez! Vai que não conseguem gravar, outra vez…


Resenha no Psychobooks

outubro 15, 2010

A seguir, a resenha escrita pela Alba para o blog Psychobooks:

Hoje vou falar deu um livro MARAVILHOSO e completamente ambientado no Folclore Brasileiro! Pra mim, que cresci lendo Monteiro Lobato, e tenho familiaridade com alguns personagens, foi delicioso, não… não é essa a palavra… Embriagante… =/ também não! Foi EXTASIANTE acompanhar Walter contando a história de Cira. Porque o Velho está no título, mas frente à força dessa personagem, ele é só um coadjuvante, uma escora… Um trampolim que leva Cira ao estrelato!

Bora conhecer mais dessa bruxa, e se deixe arrebatar, da mesma forma que ela me arrebatou!!

Edição: 1
Editora: Giz Editorial
ISBN: 9788578550851
Ano: 2010
Páginas: 232

 

Cobra Norato é um amante da vida. Pelas margens dos rios, espalhou paixões, filhos e filhas. Uma delas é Cira, que nasceu do ventre da bruxa Guaracy. Sua alegria de viver é tão intensa quanto seu ódio pelo homem que a deixou para morrer: o Velho. Domingos Jorge Velho é um caçador de homens. Ele toma a liberdade dos índios e a entrega aos brancos de além-mar. É um guerreiro, sem outra fé além do ouro e da propriedade. Cira caminha pelo País que surge, que é desbravado e desmatado. Ela persegue o rastro de Domingos. Ela encontra o ocaso da magia e a ascensão da pólvora. Em Palmares, os inimigos se enfrentarão e, nessa guerra, se descobrirá quem é o proprietário do novo mundo.

Compre aqui ou aqui! E Faça uma Alba Feliz! Comprando através desses links o livro vem AUTOGRAFADO!

Leia AQUI a promessa do Walter em me presentear com o livro “Cira e o Velho”. Minha felicidade está em suas mãos, caro leitor!! \o/

Comentários:

Falei lá em cima de Monteiro Lobato, mas esqueça qualquer relação com o universo infanto-juvenil focado nos livros dele. Aqui, o folclore brasileiro é erótico, sensual, cheio de disputas de egos. Traições e subterfúgios são comuns durante toda a leitura, os personagens engabelam desde os amantes, até a morte.

Cira é filha de Guaracy -  uma bruxa – e Norato, cria de humano com cobra.

Norato e sua Irmã, Maria Caninana nasceram de uma índia que foi seduzida por uma jiboia à beira do rio e foi morta pelas mãos do companheiro ao ser pega amamentando as duas crias.

Num acordo com o “Senhor das Mentiras”, Maria Caninana pede a habilidade de se transformar em humana para matar o ex-amante e assassino de sua mãe em troca de catorze de suas crias e catorze das crias de seu irmão, Norato. Aí a trama se desenrola, e aí que conhecemos o Velho.

Domingos Jorge Velho é um além-mar, assassino, mercenário. Está pronto para cumprir qualquer acordo e não pestaneja ao aceitar a tarefa de dar cabo dos dois últimos filhos de Norato para que a dívida de Maria Canina esteja, enfim, sanada.

E Cira é filha de Norato e de uma bruxa da floresta que tem parentesco com as sereias. Uma bruxa capaz de enganar a morte! E a tarefa que parecia fácil, se torna difícil, e se cria uma vendeta! E essa vendeta vai ter um palco inesperado. A Guerra dos Palmares.

morte “A Morte não tolera ser feita de boba. Quando percebeu que Guaracy havia feito alguma magia para enganá-la, bateu os pés no chão, como uma criança injustiçada, e jogou uma maldição sobre a bruxa e sua filha.

(…) _Se é assim, as duas vão ficar aqui! Mãe e filha. Vocês vão me chamar, mas eu não vou atender, estão ouvindo? Não quero mais saber de vocês! Não quero! – E se foi.”

Página 78

Walter recheia o livro com lendas e personagens magníficos. Curupira aparece corrompido pelo vício e pronto a entregar qualquer informação por um pouco de fumo ou nos tempos modernos por uma carreira de cocaína. Os Bichos-reis são um espetáculo à parte: Cada animal tem um rei como seu representante, e eles, como senhores da floresta estão ali para dispôr de informações da maneira como bem entenderem. Ajudando ou atrapalhando os personagens centrais da trama.

cira armada Cira é uma alma livre, conhecedora de magia e astuta na luta. Com o crânio de seu pai empoleirado no ombro ela leva medo e esperança por onde passa. Capaz de aniquilar um exército inteiro, e incapaz de morrer, Cira se junta aos negros do Palmares contra seu pior inimigo e carrasco: O Velho!

Toda a história é contada por um narrador anônimo, que sai, nos dias atuais, atrás de pistas da Cira, sedento por saber mais sobre a bruxa e suas peripécias.

Nhá é uma de suas fontes, ela estava na Guerra dos Palmares, foi amante de Norato e companheira de Cira em suas aventuras. Hoje em dia uma lenda na cidade em que vive e crente que está tocada pela maldição de sua amiga Bruxa, ou seja, incapaz de morrer:

“Diz dona Nhá que andou ao lado de Cira, quando era menina. Ela conta que foi o sangue de virgem dela, de dona Nhá, quando era menina nova, que desfez a magia que prendia a Cira na árvore. A tal da árvore era a mãe dela, transformada… Não é fantástico?”

Página 14

Entre lendas e fatos, passado e presente, Walter nos leva por um mundo de magia em companhia de um bruxa encantadora. A história real, contada pelo prisma do folclore é inebriante! Mboitatá, Curupira, sereias… Todos os seres do folclore brasileiro estão ali inseridos! Só senti falta do Saci… Acho que ele poderia ter dado o ar da graça e aprontado alguma das suas durante a história!

5estrelas

 

Bom, e o negócio foi que eu fiquei tão EMPOLGADA com a leitura que não me satisfiz em apenas resenhar o livro, resolvi mandar algumas perguntas pro Walter pra saber se arrancava dele alguma novidade envolvendo Cira e seu mundo Fantástico! Vamos ver o que ele tem a nos dizer:

 

Alba – O que o levou a escrever focado no folclore brasileiro?

Walter – Falar sobre folclore brasileiro foi natural para mim. Na hora que pensei “quero fazer algo como o “Senhor dos Anéis”, a primeira coisa que me veio à mente foi seguir a lógica de Tolkien. Ou seja, criar um mundo imaginário utilizando elementos da mitologia do meu país. Ele fez isso com a cultura céltica. Eu queria fazer com o folclore brasileiro. Na primeira versão do livro, quando ainda era uma história em quadrinhos, eu lembro de ter redesenhado o mapa do Brasil, como se fosse um mundo paralelo ou coisa assim, com sua própria história. No meio desse processo, eu parei e pensei “que diabos eu estou fazendo? Para quê fazer o leitor entrar em outro mundo? Já tem a Terra Média de Tolkien e a Era Hiboriana de Howard. Pare com essa pretensão. Conte uma história e pare de ficar criando realidades alternativas. Olha o mundo ai, cheio de histórias esperando para serem contadas.” Eu reconheço que algumas lendas e personagens são simplórios, se comparados aos grandes dragões, elfos, magos, vampiros… mas nada que um pouco de imaginação e manipulação não resolvesse. Curupira não é um personagem ruim, infantil. Só faltava alguém enxergá-lo com outros olhos.

Alba – Cira é uma personagem forte e com grande apelo, conquista na primeira “lida”. Pretende escrever algo mais em que ela seja a protagonista? Afinal, temos aí 400 anos de histórias não contadas!!

Walter – Cira é uma mulher muito forte. Gosto de personagens assim. Eu já estou trabalhando em um segundo livro da Cira e, nos intervalos, escrevo alguns contos. Não sei o que farei com eles. Se os espalharei em futuras edições, se reunirei para um livro… tudo depende de como o primeiro e o segundo livro da Cira sejam recebidos. O segundo sairá. Não sei quando, porque é um texto que exige muita pesquisa, mesmo que eu não tenha o compromisso de ser fiel à História oficial brasileira.

Alba – Está trabalhando em algum livro no momento? Fale-nos um pouco sobre seu projeto.

Walter - Sou lento para escrever, porque sou exigente. Capricho mesmo. Eu realmente acredito que o tamanho de um livro é inversamente proporcional ao tempo que o autor se dedica a ele. Desde a primeira versão, cortei tanta coisa que era irrelevante… Escrever é uma arte que pede muita lapidação. Pelo menos, é assim que escrevo. Além desse segundo livro da Cira, estou trabalhando em outro texto que ainda não decidi se será um conto ou um livro. É uma história diferente, atual e urbana. Também comecei o trabalho de pesquisa para um livro de ficção científica. Esse, com certeza, vai demorar mais de dois anos… para eu começar a escrever. Então, já viu…

Estou amadurecendo algumas ideias, mas não há nada concreto. Vou resistir o quanto der escrever sobre vampiros. Não tenho muito interesse. Nem em mashups. Até escreveria algo com zumbis, mas ainda não tive nenhuma ideia empolgante e não me interessa ficar requentando temas. Já considerei seriamente escrever um livro erótico, mas preciso testar e treinar mais essa seara.

Alba – No final de cada resenha, indicamos uma “playlist” com as músicas que achamos ser a “cara” do livro. Eu não consegui tirar da cabeça “O Vira” dos Secos e Molhados [apesar de ser muito animada... Imaginava a Nhá e a Cira cantando na floresta]. Alguma música que tenha te inspirado?

Walter – “O Vira” é perfeito!

Um pouco complicado eu indicar músicas, porque não tenho um gosto muito eclético, não. Em geral, ouço muito rock. Mas vá lá:

Cabeça dinossauro, Saia de mim e Nem sempre se pode ser Deus – Titãs

Índios – Legião Urbana

Nocturne – Rush

Run to the hills – Iron Maiden

Quando a maré encher – Nação Zumbi

Manguetown – Chico Scienci e Nação Zumbi

Mas você disse “apesar de ser muito animada…” mas eu vejo Cira como uma mulher que, apesar de tudo, é apaixonada. Por tudo.

Bom, deixo vocês com essa Playlist pra lá de especial que o Walter indicou e uma recomendação: Leiam “Cira e o Velho” e se encantem da mesma forma que eu me encantei!!

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E será que rola sorteio do livro??

Isso depende de vocês! Minha primeira exigência, que esse post tenha 20 comentários. Mas não é qualquer comentário. Quero que você leia a resenha e junto com seu comentário e nome de seguidor do twitter, deixe a frase nesse post:

“Eu tenho medo de [coloque aqui uma lenda que tenha sido mencionada na minha resenha]”

Minha segunda exigência, também obrigatória, é que você nos siga no twitter:

Walter TiernoPsychobooks

Feito isso, acessem o POST no blog do Walter Tierno, leiam atentamente e esperem pela pergunta que ele vai fazer pelo twitter DELE! (tudo será devidamente avisado). A primeira pessoa que twittar a resposta para o twitter do Psychobooks, leva o livro “Cira e o Velho” para casa. \o/ Bora??!!

 

Obrigado à galera que  faz o Psychobooks e, em especial, à Alba.


As primeiras impressões da Alba

outubro 12, 2010

Alba Milena, do blog Psychobooks, foi quem se apresentou como voluntária par ler “Cira e o Velho”. As meninas do site receberam um exemplar durante a Bienal do Livro, no stand da Giz, onde eu estava engolindo a timidez para vender meu livro. Elas andavam em bando, queriam saber todas as novidades, pediam marcadores para sortear para os leitores… estavam uniformizadas e tudo o mais. Eu fiquei bastante feliz por se interessarem em falar sobre o livro.

A Alba vai soltar uma resenha nesta quinta-feira, dia 14 de outubro. Pelo vídeo que você pode conferir aqui, ela gostou do que leu.

Ela ficou um pouco chateada porque terá que enviar o livro que está com ela para um leitor do blog. Então, já me comprometi com ela e repito aqui para mostrar que não estou brincando: Se alguém comprar pelo site da livraria Fantástica ou pelo site da Cira e disser que foi por indicação da Alba, eu vou mandar um livro de presente para ela… assim, a praga que ela está jogando sobre quem ganhar o livro não pega.


“Cira e o Velho” na livraria Fantástica

outubro 11, 2010

A livraria Fantástica, ligada ao site da Revista Fantástica, agora também está vendendo “Cira e o Velho”. Confira aqui.

As condições para a compra são as mesmas do site oficial do livro: Ele vai com assinatura, dedicatória, marcador de página exclusivo e frete grátis.


Minha entrevista para o Cranik

setembro 29, 2010

Ademir Pascale, autor de “O Desejo de Lilith“, fez uma entrevista comigo logo depois de ler “Cira e o Velho”. Seguindo a ideia de manter um registro das matérias publicadas sobre o livro, ai vai uma reprodução da entrevista:

ENTREVISTA:

Ademir Pascale: Para iniciarmos, gostaria de saber quais foram as suas principais influências e o seu início para o meio literário.

Walter Tierno: Minhas principais influências literárias são Neil Gaiman, Érico Veríssimo, Bernard Cornwell, Frank Herbert e George Orwell. Muito do meu estilo vem da leitura dos livros deles. Já nos quadrinhos, meu trabalho foi muito influenciado por Frank Miller, Will Eisner e Laerte. Sobre meu início literário: escrever sempre foi uma paixão, assim como desenhar. Talvez por isso eu seja tão maníaco por histórias em quadrinhos. Meu livro “Cira e o Velho”, por exemplo, havia começado como uma história em quadrinhos. Mudei de ideia há uns dois anos. A prosa permite criar mais e eu queria que “Cira” tivesse flexibilidade para se encaixar na imaginação dos leitores. Que cada um imaginasse “sua própria Cira”. Agora, peguei gosto pela coisa. Tenho uns dois projetos de quadrinhos, mas meus próximos trabalhos ainda serão em prosa.

Ademir Pascale: Como surgiu a ideia da criação da sua mais recente obra intitulada Cira e o Velho (Giz Editorial)?

Walter Tierno: Foi um processo longo demais, apesar da aparente simplicidade do livro. Como eu disse, era uma história em quadrinhos. Eu a comecei logo depois de lançar uma revista, chamada “Curtan”, em 2000. Inexperiente e apressado, acabei frustrado com o resultado e queria alcançar uma espécie de redenção. Quando comecei “Cira”, ela nada tinha a ver com o que é hoje. Não vou entrar em detalhes, porque a ideia inicial era ridícula demais. O que interessa é que, em determinado momento, eu olhei para meus livros de “O Senhor dos Anéis” e pensei: “Por que eu não faço algo nesse estilo?”. A ideia de ambientar no Brasil, usando elementos do nosso folclore, foi um curso mais do que natural para mim. Foi minha primeira ideia. Nunca me passou pela cabeça falar sobre cultura céltica, dragões, elfos ou coisas do tipo. Sempre considerei mais coerente trabalhar com elementos reconhecíveis e acessíveis, que criam reconhecimento imediato e empatia.

Ademir Pascale: Como está sendo a receptividade dos leitores por se tratar de uma obra ligada ao folclore nacional numa época onde os vampiros são tão aclamados?

Walter Tierno: Eu, particularmente, não sinto atração por vampiros. Nunca senti. Já li “Drácula” de Bram Stoker, assisti ao filme de Copolla (muito bom, por sinal) e ao “Entrevista com o vampiro”. Isso foi o máximo que explorei do tema. Não sei… pode ser que eu, um dia, acabe tendo alguma ideia, mas desconfio, considerando meu estilo, que acabarei corrompendo muitos dogmas. Pensando bem, pode até ser divertido… Quanto a “Cira e o Velho”, eu ainda não tenho dados sobre a receptividade geral dos leitores, principalmente os leitores do gênero fantasia. As pessoas que são mais próximas e que já leram, gostaram. Muitas até perguntam se haverá continuação. É curioso trabalhar com lendas brasileiras. A primeira coisa que vem à cabeça são aqueles desenhos mimiografados ou xerocados que as professoras distribuíam no Dia do Folclore para colorir e encher de glitter. Você fala “curupira” e a mente de qualquer um vai direto para alguma memória de infância. Acredito que isso é uma das grandes barreiras para que se escrevam mais histórias usando elementos brasileiros. Leitores e autores sentem mais firmeza quando pensam em um dragão, no alto de uma montanha na Islândia – ou qualquer outro país muito gelado – do que na Cuca.

Ademir Pascale: Quando recebi o seu livro como cortesia, notei algo diferente dos demais que venho recebendo, um kit imprensa muito caprichado, com um cd contendo todas as informações necessárias sobre a obra e o autor, além de cards ilustrados belíssimos com as personagens. No seu ponto de vista, você acha que o fato de ser ilustrador, jornalista e publicitário facilita e viabiliza ainda mais a sua obra na mídia?

Walter Tierno: O fato de eu ser ilustrador e jornalista facilitou na hora de montar kits caprichados. Só isso. Quanto à penetração na mídia, estou contando com a ajuda de um amigo de longa data, Marcelo Toledo, que é assessor de imprensa. Ele embarcou nessa, não só por nossa amizade, mas também porque ele realmente gostou do livro. Mas divulgar o livro de um autor iniciante na mídia é difícil. Muito difícil! Não existe uma fórmula. Enviei kits como esse que você recebeu para vários veículos e para blogueiros que entram em contato. Tenho dado preferência a esse tipo de comunicação porque atinge público específico. E tem muito leitor que confia mais em opinião de blogueiro, que muitas vezes é um cara comum, como ele, com preferências parecidas, do que em jornalistas de grandes veículos.

Ademir Pascale: Existe algum apoio da editora Giz na publicidade do livro Cira e o Velho ou isso fica a cargo apenas do autor?

Walter Tierno: A publicação de “Cira e o Velho” é independente. Estou bancando os custos e monitoro cada parte do processo. A Giz faz a divulgação básica junto a seus contatos, coloca o livro em distribuidoras e livrarias e participa de feiras e eventos importantes, como as Bienais de São Paulo e Rio e a Fantasticon. É muito mais do que faz qualquer uma das editoras que publicam obras independentes ou “por demanda”. A maioria dessas editoras coloca seu livro à venda em sites que ninguém visita, deixam a tiragem na porta da sua casa e “vire-se”. A Giz dá mais suporte. Seria pedir demais que eles investissem em propaganda para um livro independente. Falhas e desencontros existem na minha relação profissional com a Giz. Mas isso acontece em qualquer relação comercial.

Ademir Pascale: Como os interessados deverão proceder para adquirir o seu livro?

Walter Tierno: Por enquanto, está à venda no site da Martins Fontes Paulista (e também na loja física) e no site da livraria Cultura. Se for bem após a Fantasticon, pretendo imprimir mais alguns e espalhá-los por mais livrarias, talvez até em uma distribuidora. Também tem na livraria Moonshadow. No site da obra (www.ciraeovelho.com.br) ele já pode ser comprado, entrando em contato por e-mail. Por enquanto, eu apanho o pedido e envio após o depósito bancário (sem frete!). Mas em pouco tempo o livro poderá ser comprado pagando pelo PagSeguro.

Ademir Pascale: No seu ponto de vista, como está o mercado editorial referente à publicação de autores nacionais?

Walter Tierno: Como sempre foi: difícil! Os editores não querem apostar em novos talentos ou desconhecidos. Não dá para culpá-los por isso. Editora é um negócio. Só lamento que eles estejam tão apavorados com tantas coisas: crise econômica, e-book, pirataria… Estão fazendo projeções e adivinhações exageradas. Tem gente declarando o fim do livro de papel, o fim da palavra escrita, o fim da cultura, o fim do mundo… Não é para tanto. A internet, por sua vez, é uma ferramenta, nada mais, nem menos. Não é o começo, meio e fim de nada. Ela tem ajudado a divulgação de novos autores. Veja o caso do Eduardo Spohr, por exemplo, que estourou através de um blog! Eu tenho tido mais receptividade ao meu trabalho por blogueiros, pelo que agradeço muito. O mercado editorial está sofrendo do mesmo mal que assola a mídia em geral. O culto à celebridade, ao que é fácil. A infantil repetição de fórmulas que agradam. Na Bienal de São Paulo, eu vi uns três livros biográficos sobre Lady Gaga. Pelamordedeus! Ela só tem 24 anos! A primeira reação que temos é chamar os editores de mercenários e os leitores de ignorantes. Mas é tão simples? Claro que não!

Ademir Pascale: Poderia dar algumas dicas para os jovens que estão ingressando no meio literário?

Walter Tierno: Em primeiro lugar, escrever é uma arte e, como artista, você tem que ser, essencialmente, um questionador. Uma metralhadora de dúvidas, que dispara em tudo à sua volta e que, em muitas ocasiões, tem que estar virada para você. Questione o mundo à sua volta, questione-se, mas, o mais importante, questione muito seu trabalho. Não se deixe levar pela afobação. Escrever um livro é uma arte que exige paciência e capricho. Não é a toa que muitos artistas são atormentados. Em segundo, seja inovador. Não se contente em ficar requentando ideias. Mas mais importante do que isso é não ser prolixo! Detalhes que são prazerosos para você, enquanto escreve, podem não provocar nenhum interesse no leitor.

Ademir Pascale: Existem novos projetos em pauta?

Walter Tierno: Tenho uma ideia para uma história em quadrinhos que ainda está fermentando. Essa vai demorar um pouco. Tenho intenção de escrever um livro de ficção científica. Ainda estou montando os personagens e a trama. “Cira e o Velho” é um livro independente. Não exige continuação, mas tenho ideia para outros dois sobre Cira, além de uma antologia de contos com ela. Mas esses dois livros de Cira exigirão muito trabalho de pesquisa, então demorarão um pouco para serem publicados. Tenho outras ideias na cabeça, mas são embrionárias demais até para mencionar.

Ademir Pascale: Como os interessados deverão proceder para saber mais sobre Walter Tierno e a obra Cira e o Velho?

Walter Tierno: Acessar o site www.ciraeovelho.com.br e meu blog: www.waltertierno.wordpress.com. Tem também o Twitter: http://twitter.com/waltertierno

Perguntas Rápidas:

Um livro: 1984
Um(a) autor(a): Will Eisner
Um ator ou atriz: Lima Duarte
Um filme: King Kong de 1933
Um dia especial: quando conheci minha esposa
Um desejo: viver daquilo que amo fazer

Ademir Pascale: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Walter Tierno: Não pretendo levantar nenhuma bandeira. Não estou fazendo uma defesa sobre utilizar os elementos da nossa cultura, blá, blá, blá… seria uma hipocrisia indescritível. Só quero deixar isso bem claro. Levantar bandeiras é um negócio sério. Não se deve ser leviano. Aproveitando: não sejam levianos na hora de votar. Obrigado.

O Ademir foi o primeiro a fazer uma entrevista comigo. Pela qual sou imensamente grato.


“Cira e o Velho” no Leitura Escrita

setembro 29, 2010

Ana Carolina, do blog Leitura Escrita falou sobre “Cira e o Velho”. Para manter um registro das matérias divulgadas sobre Cira, vou reproduzir aqui o que ela escreveu:

“Cira e o Velho – Walter Tierno

Os próximos três posts – são duas resenhas certas e um artigo programado – vão fazer mais uma trilogia aqui no blog, pois tangenciam mais ou menos o mesmo tema. Mas vamos lá ao primeiro deles.

***

Quando eu tinha meus oito ou nove anos comecei a fazer a transição dos livros infantis para os com uma pegada mais infanto-juvenil (os voltados para uma faixa etária de uns 10-14 anos) e, entre eles, obviamente, os clássicos da Coleção Vagalume. E o que falar da Coleção Vagalume? Histórias, algumas de autores que acabaram se consagrando, para todos os gostos: mistério, aventura, policial, horror… A grande maioria dos cenários era o “hoje” e o “agora” (apesar de que o “hoje” e “agora” de algumas histórias acabasse sendo a década de 30 ou de 40, quando elas foram escritas, mas isso de forma alguma tornava a leitura menos instigante ou dificultava a imersão), tendo por protagonistas jovens (também dos 10 até uns 20 anos) metidos em altas aventuras e confusões.

Só comecei a ser torturada com estudar literatura clássica lá pela oitava série do ensino fundamental, antes disso os trabalhos escolares eram feitos com base em livros infanto-juvenis -  muitas vezes com os clássicos Vagalumes. Mais do que isso: eles me fazem lembrar com saudades de meu refúgio sagrado da escola, a biblioteca, de onde era frequentadora quase diária.

A leitura de Cira e o Velho me fez lembrar esses tempos de Coleção Vagalume no que diz respeito ao tom aventuresco e despretensioso da trama, além da forma como ela me fisgou. Na verdade, imagino que o livro seria excelente leitura para alunos do segundo ciclo do Ensino Fundamental (na minha época era de quinta a oitava série), os deixaria animados e instigados com o que vem pela frente. E, claro, me empolgou e instigou como adulta saudosista, mas me imaginei lendo esse livro aos 13 ou 14 anos.

O livro começa com o narrador, nos dias de hoje, pesquisando sobre Cira, filha de bruxa e criatura mística que viveu anos atrás quando o Brasil ainda começava a ser explorado e colonizado, por quem desde criança ele foi fascinado. Mesclada com sua busca está a história de Cira – e muitas outras histórias e mitos que acabam tangenciando sua trajetória.

Cira é filha do famoso Cobra Norato e precisa ser morta por causa de uma maldição lançada por sua tia Maria Caninana. O homem escolhido para executá-la é o Paulista, aventureiro truculento que atravessa o sertão em busca de dinheiro – e a perseguição de gato e rato entre os dois é a tônica da trama.

Cira, apesar do encantamento que o narrador sente por ela, não é uma heroína boazinha e determinada. Ela tem seus próprios assuntos a resolver, comete erros, para para descansar e dar voltas. É um espírito livre em missão.

E aqui entra um parêntesis: quando se fala em “fantasia nacional”, uma discussão chata e recorrente versa sobre a utilização dos elementos do folclore nacional em detrimento de importações estrangeiras como anões, elfos, vampiros, pixies, banshees ou o que seja. Para algumas pessoas, uma legítima “fantasia brasileira” seria povoada de sacis, mulas sem cabeça e boitatás como um ode à brasilidade e…

Na minha opinião? BOBAGEM. O autor escreve sobre aquilo que se sente confortável em pesquisar, escrever e criar, independente da parte do mundo onde ele esteja. E esse pessoal costuma esquecer que mesmo no Brasil existem vááárias regiões, mitologias e crenças diferentes entre si. Eu, da região do ouro de Minas Gerais, ao invés de falar dos mitos católicos coloniais ou dos lobisomens, mulas-sem-cabeça e assombrações (quando criança e menina de roça cansei de ouvir histórias dessas criaturas, mesmo nos dias de hoje), posso resolver falar de Ana Jansen lá de São Luiz – que está tão próxima de minha realidade quanto, sei lá, uma banshee. E pra ser muito sincera, um vampiro, um alienígena ou um zumbi está mais próximo do imaginário de uma moça urbana moradora da capital do que um boitatá, um curupira ou um saci. E aí, como esse raciocínio fica? Perde a validade?

Mas acho que o folclore é brasileiro demais para ser rejeitado e rechaçado pelos autores. Walter Tierno aqui descreve um mundo povoado por cobras mágicas, mboitatás, curupiras, animais falantes, assombrações e bruxas (com participação especial do Negrinho do Pastoreio), mas rico, colorido e que não parece uma aula de literatura/cultura nacional chata e arrastada. A trama passa por esses antigos conhecidos, mas sem ser panfletária ou querer fazer referência a uma pretensa “brasilidade”. É um material rico para se contar histórias – e o autor está fazendo isso, e bem.

(Outro autor que tem um trabalho maravilhoso sobre o Brasil colonial e nossos mitos é o Christopher Kastensmidt e seu maravilhoso The Elephant and Macaw Banner – e, nota, ele é um americano radicado no Brasil. Acho esse projeto tão lindo que ainda vou retomá-lo aqui com mais calma )

Quanto ao desenvolvimento do romance, a história é contada de maneira ágil e dá para se passear pelas páginas do romance com fluidez e interesse. E já mencionei que o livro é ilustrado? Adoro livros ilustrados E junto do meu exemplar ainda vieram cartinhas coloridas dos personagens, adorei. O autor mantém o interesse do leitor do começo ao fim, apesar de que acho que ele derrapa no final. Ele poderia ter usado mais um ou dois capítulos para fechar a história de maneira menos abrupta.

Outra coisa: alguns autores se ofendem quando lhes é dito que sua obra é infanto-juvenil. Não sei se tenha sido intenção do autor mirar esse público, mas acho que ele o acertaria com precisão. Pessoalmente, os dois gêneros que acho mais difíceis de escrever são o infanto-juvenil e o infantil. Como manter o interesse de um público jovem em sua trama e ao mesmo tempo não subestimar sua inteligência?

Minha única ressalva, pensando menos nesse público e mais nos censores das Secretarias de Educação, é dar uma maneirada nas cenas de sugestão sexual. Não tem nada explícito (tirando uma passagem que pedobear aprovaria, mas que está contextualizada e é até mesmo poética), mas sabemos como as coisas funcionam no país, né…

Enfim, valeu a leitura, achei interessante e me lembrou meus antigos dias na biblioteca, fascinada e deliciada pela Coleção Vagalume…”

Meus agradecimentos sinceros para a Ana.


Não sou Dom Quixote

setembro 26, 2010

Tive algumas conversas interessantes neste final de semana. Conversas que me deram muito em que pensar. Perdoem-me se não usarei os nomes reais de alguns de meus interlocutores ou de terceiros mencionados. Acredito que seria uma indelicadeza fazê-lo sem a devida permissão.

O primeiro desses papos aconteceu em frente a uma pet shop. Coincidentemente, enquanto carregava um saco de 12kg de areia sanitária para gatos em um carrinho de feira, encontrei um amigo de longa data que estudou comigo no Senai. A última vez em que nos encontramos havia sido no lançamento de “Cira e o Velho”. Naquela ocasião, evidentemente, não houve muito tempo para conversarmos (na verdade, não houve oportunidade para conversar com muitas das pessoas que lá compareceram; principalmente meus colegas de Senai). Uma pena. Ele comprou um livro e pediu que eu desenhasse Anardeus, um velho personagem meu.

Nesse encontro acidental em frente ao pet shop pedi sua opinião sobre o livro. Até então, ele lera metade. Confessou-me que comprou por amizade. Se o tivesse apanhado em uma livraria e lido a sinopse da quarta capa, devolveria à prateleira. Por isso, segundo ele, surpreendeu-se com o que encontrou dentro. Ele estava gostando e me rotulou como um “contador de histórias”. Vindo dele, acreditem, foi um grande elogio.

Tive dois sentimentos bastante distintos com essa declaração: um foi orgulho, claro. Afinal, é a oportunidade de ver quatro anos de trabalho duro e meticuloso sendo apreciado.  O outro foi apreensão. Pergunto-me quantas pessoas, como ele, se sentiram desinteressadas pela sinopse ou pela capa e deixaram de experimentar o conteúdo, que poderia, quem sabe, conquistá-las? Será que, ao ter contato com a capa ou a sinopse, as pessoas se lembram daqueles trabalhos mimiografados de escola, com sacis para serem pintados e curupiras para receberem camadas de purpurina? Será que acreditam que vão encontrar uma genérica de Narizinho, do Sítio do Picapau Amarelo?

Esse meu amigo acredita que o tema que escolhi é difícil e que, embora eu tenha dado dinâmica e visão diferentes e interessantes, o lançamento de “Cira e o Velho” é um trabalho quixotesco. Que tem que vencer muitos preconceitos. Quaisquer livros com vampiros, dragões, anjos ou zumbis têm preferência a um romance com lendas e história brasileiras.

A outra conversa interessante ocorreu à noite e foi com uma blogueira, pelo MSN. O tema foi completamente diferente. Falamos sobre uma resenha que ela escreveu para um autor iniciante que escreveu um livro sobre um super-herói. Eu percebi, lendo a resenha, que apesar de não ter gostado do livro, ela se recusou a usar comentários negativos. Confrontei-a sobre isso.

Afinal, ao se posicionar como uma comentarista e suposta formadora de opinião, acredito que ela deveria ser honesta com suas impressões sobre uma obra. Dizer que não apreciou um livro não significa que ela esteja condenando um autor novato, muito menos que é dona da verdade. Significa apenas que ela teve uma impressão negativa sobre o trabalho, e que pessoas que pensam de forma semelhante a ela procuram sua opinião antes de gastar 40 reais em um livro que poderá ser frustrante. Cobrei que ela considerasse assumir posições mais claras. Afinal, ela resenhará meu livro e vou exigir que ela seja honesta com o que vai encontrar.

Ela indicou que eu ouvisse um podcast para quem o tal autor concedeu uma entrevista. Ficou clara a ironia com que os entrevistadores conduziram a conversa. Eles o convidaram como uma atração bizarra. Uma espécie de “Inri Cristo” da literatura fantástica nacional. Afinal, o rapaz tem problemas de percepção da realidade.

Essa conversa com a blogueira e o podcast com o garoto egomaníaco me fizeram refletir sobre minha postura em relação à divulgação de meu livro. Em uma entrevista que gravei com meu amigo e assessor de imprensa Marcelo Toledo, brincamos sobre a possibilidade de “Cira e o Velho” ser transformado em filme. Até mencionei dois atores para os papéis principais. Uma conversa parecida surgiu durante o bate-papo que ocorreu durante a Fantasticon e eu disse aos outros: “Qual de nós aqui não sonha em ver seu livro transformado em filme?”. Pergunto-me se estou passando essa mesma imagem desgarrada da realidade que percebi no rapaz.

Será que deixei suficientemente claro que essas brincadeiras sobre filme de Cira não passam disso? Brincadeiras da imaginação? Para mim, basta a tarefa hercúlea de conquistar um leitor por vez. A proposta de “Cira e o Velho” é quixotesca. Mas eu não sou nada parecido com Dom Quixote.


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