Frango sedativo

A publicidade tem grande importância social e política. Ou você pensa que é por acaso que os órgãos de comunicação estão entre as primeiras instituições tomadas na ascensão de governos totalitários? Hittler, por exemplo, tinha um ministro de Propaganda. Quem trabalha com publicidade e propaganda tem o dever de exercer sua profissão com responsabilidade e ética. Não confundamos com censura. E não confundamos, também, liberdade de expressão com, digamos… babaquice.

Está no ar uma peça publicitária do produto “Chicken Popcorn”. No filme, uma mãe senta-se à mesa para conversar com a filha, uma criança de uns 8 ou 9 anos, sobre sua atuação na escola. Que a menina tem tirado notas baixas, tem-se mostrado desconcentrada… A menina está saboreando o produto. Corta para o logotipo da empresa. Ele se abre, e a menina aparece e fala com o espectador: “Tenho que abrir o coração para vocês”. Ela diz como fica distraída quando está comendo o “Chicken Popcorn” e por isso que não presta atenção ao que a mãe está falando.

Deixe-me ver se eu entendi:

1 – A mãe não se sentou com a filha à mesa para falar sobre uma amenidade qualquer. Ela está falando sobre o desempenho negativo da menina na escola.

2 – A menina, comendo, não presta a menor atenção ao que a mãe fala.

Isso era para ser uma qualidade do produto? Sua capacidade de fazer a menina não escutar a mãe? O comercial ainda deixa margem para que se deduza que o produto também é responsável pelos problemas da criança na escola.

Trabalho com publicidade. Sei que uma peça tem que receber o aval de muitas pessoas. Preocupa-me imaginar que esse comercial da Perdigão possa ter passado pela avaliação de tanta gente e, mesmo assim, tenha ido ao ar.

É um exemplo de propaganda negativa para o produto, atribuindo-lhe a “qualidade” de minar a atenção de uma criança e atrapalhar seu andamento escolar e seu relacionamento com a mãe. Ninguém falou para os responsáveis pela aprovação do comercial que é a mãe que compra o tal “Chicken Popcorn”?

Também é um exemplo de falta de ética ao tratar de assuntos sérios. Podemos ir longe e dizer que estão brincando com um mal que aflige os alunos, o déficit de atenção. Quem sabe não podemos dizer que estão fazendo piada de mau gosto com evasão escolar, analfabetismo funcional…?

A campanha da Perdigão é, na falta de termo melhor, um desrespeito, não só aos consumidores, mas àqueles que prezam pela ética e responsabilidade social quando exercem sua profissão de publicitário.

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