O Macartismo tardio contra Will Eisner

Quase 60 anos depois de apavorar a indústria de entretenimento norte-americano, o movimento liderado pelo senador Joseph McCarthy parece querer entrar na cultura brasileira. Não com a paranóia anti-comunista e a pressão do senado, como aconteceu nos EUA, mas com o mesmo espírito neurótico e agarrando-se a conceitos questionáveis de “moral e bons-costumes”. Tanto lá como aqui, a indústria dos quadrinhos se transforma em alvo prioritário. Lá, na década de 50, o Macartismo foi responsável pela criação do famigerado Comics Code. Aqui… sabe-se lá que tipos de ideias podem surgir.

Depois da polêmica gerada pela lambança da Secretaria Estadual de Cultura, que indicou uma história em quadrinhos adulta para alunos da quarta série, os moralistas de plantão sentiram-se na obrigação de apontar suas neuroses para outras obras gráficas. O escolhido da vez foi nada menos que a obra-prima “Um Contrato com Deus” de Will Eisner, que está na lista do MEC. Por não ser considerado didático, está seguindo para as bibliotecas. Educadores de São Paulo e Paraná estão exigindo a retirada do livro das prateleiras, alegando que contém cenas de violência, estupro e pedofilia e que está circulando entre alunos da quinta série.

Paulo Teixeira, um blogueiro cristão/maluco está rotulando a graphic novel como “obra do Poder das Trevas”: http://holofote.net/2009/06/02/livro-%E2%80%9Cum-contrato-com-deus%E2%80%9D-que-vai-ser-distribuido-pelo-governo-federal-as-bibliotecas-escolares-contem-cenas-de-estupros-violencia-domestica-pedofilia-e-outras-aberracoes/

É uma tristeza ver o trabalho de um dos mais importantes artistas do século XX sendo reduzido a um “gibi com cenas inadequadas”.

“Um Contrato com Deus” é poesia gráfica, lição de desenho e narração. A história principal e as histórias curtas que a acompanham são frutos de lembranças da infância e adolescência de Will Eisner. Não é  para crianças, é verdade, mas está longe de ser merecedora de uma caça às bruxas. Muito menos ser jogada na fogueira da censura imbecil dos neo-macartistas e manipuladores da paranóia acéfala.

acontractwithgod

 

Deixe uma resposta