Não sou Dom Quixote

Tive algumas conversas interessantes neste final de semana. Conversas que me deram muito em que pensar. Perdoem-me se não usarei os nomes reais de alguns de meus interlocutores ou de terceiros mencionados. Acredito que seria uma indelicadeza fazê-lo sem a devida permissão.

O primeiro desses papos aconteceu em frente a uma pet shop. Coincidentemente, enquanto carregava um saco de 12kg de areia sanitária para gatos em um carrinho de feira, encontrei um amigo de longa data que estudou comigo no Senai. A última vez em que nos encontramos havia sido no lançamento de “Cira e o Velho”. Naquela ocasião, evidentemente, não houve muito tempo para conversarmos (na verdade, não houve oportunidade para conversar com muitas das pessoas que lá compareceram; principalmente meus colegas de Senai). Uma pena. Ele comprou um livro e pediu que eu desenhasse Anardeus, um velho personagem meu.

Nesse encontro acidental em frente ao pet shop pedi sua opinião sobre o livro. Até então, ele lera metade. Confessou-me que comprou por amizade. Se o tivesse apanhado em uma livraria e lido a sinopse da quarta capa, devolveria à prateleira. Por isso, segundo ele, surpreendeu-se com o que encontrou dentro. Ele estava gostando e me rotulou como um “contador de histórias”. Vindo dele, acreditem, foi um grande elogio.

Tive dois sentimentos bastante distintos com essa declaração: um foi orgulho, claro. Afinal, é a oportunidade de ver quatro anos de trabalho duro e meticuloso sendo apreciado.  O outro foi apreensão. Pergunto-me quantas pessoas, como ele, se sentiram desinteressadas pela sinopse ou pela capa e deixaram de experimentar o conteúdo, que poderia, quem sabe, conquistá-las? Será que, ao ter contato com a capa ou a sinopse, as pessoas se lembram daqueles trabalhos mimiografados de escola, com sacis para serem pintados e curupiras para receberem camadas de purpurina? Será que acreditam que vão encontrar uma genérica de Narizinho, do Sítio do Picapau Amarelo?

Esse meu amigo acredita que o tema que escolhi é difícil e que, embora eu tenha dado dinâmica e visão diferentes e interessantes, o lançamento de “Cira e o Velho” é um trabalho quixotesco. Que tem que vencer muitos preconceitos. Quaisquer livros com vampiros, dragões, anjos ou zumbis têm preferência a um romance com lendas e história brasileiras.

A outra conversa interessante ocorreu à noite e foi com uma blogueira, pelo MSN. O tema foi completamente diferente. Falamos sobre uma resenha que ela escreveu para um autor iniciante que escreveu um livro sobre um super-herói. Eu percebi, lendo a resenha, que apesar de não ter gostado do livro, ela se recusou a usar comentários negativos. Confrontei-a sobre isso.

Afinal, ao se posicionar como uma comentarista e suposta formadora de opinião, acredito que ela deveria ser honesta com suas impressões sobre uma obra. Dizer que não apreciou um livro não significa que ela esteja condenando um autor novato, muito menos que é dona da verdade. Significa apenas que ela teve uma impressão negativa sobre o trabalho, e que pessoas que pensam de forma semelhante a ela procuram sua opinião antes de gastar 40 reais em um livro que poderá ser frustrante. Cobrei que ela considerasse assumir posições mais claras. Afinal, ela resenhará meu livro e vou exigir que ela seja honesta com o que vai encontrar.

Ela indicou que eu ouvisse um podcast para quem o tal autor concedeu uma entrevista. Ficou clara a ironia com que os entrevistadores conduziram a conversa. Eles o convidaram como uma atração bizarra. Uma espécie de “Inri Cristo” da literatura fantástica nacional. Afinal, o rapaz tem problemas de percepção da realidade.

Essa conversa com a blogueira e o podcast com o garoto egomaníaco me fizeram refletir sobre minha postura em relação à divulgação de meu livro. Em uma entrevista que gravei com meu amigo e assessor de imprensa Marcelo Toledo, brincamos sobre a possibilidade de “Cira e o Velho” ser transformado em filme. Até mencionei dois atores para os papéis principais. Uma conversa parecida surgiu durante o bate-papo que ocorreu durante a Fantasticon e eu disse aos outros: “Qual de nós aqui não sonha em ver seu livro transformado em filme?”. Pergunto-me se estou passando essa mesma imagem desgarrada da realidade que percebi no rapaz.

Será que deixei suficientemente claro que essas brincadeiras sobre filme de Cira não passam disso? Brincadeiras da imaginação? Para mim, basta a tarefa hercúlea de conquistar um leitor por vez. A proposta de “Cira e o Velho” é quixotesca. Mas eu não sou nada parecido com Dom Quixote.

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