Crônica de um nascimento

Há pouco mais de nove meses atrás, perguntei à minha esposa:

- Você não está mais usando anticoncepcional? – Não seria nada elegante dizer como notei esse detalhe.

- Não. Esse ano, vou engravidar.

Sou especialmente determinado e confiante em raras questões. Não era o caso da paternidade. Sempre tive um sentimento ambíguo sobre a questão. Não era um objetivo, tampouco um pavor. Não era desejada, tampouco seria repelida. Por isso, deixei a decisão a cargo de minha esposa. Comodismo? Indecisão? Preguiça? Não saberia dizer. Julguem minha atitude como bem entenderem.

Naquele dia, minha esposa anunciou que havia se decidido. Lá do alto da minha confortável posição de neutralidade, que mais eu poderia dizer?

- Tá bom  – respondi.

Algumas semanas depois, ela me acordou às cinco da manhã. Balançou a fita mijada do teste de gravidez e anunciou nosso triunfo reprodutivo. Seríamos pais.

Querem saber quando a informação assumiu a devida proporção na minha cabeça? Eu aviso quando acontecer.

No terceiro ou quarto ultrassom (não recordo em qual), a confirmação de um desejo da mãe: uma menina. Confesso que era uma preferência do pai também. Atirem pedras os pais e mães que não torceram na loteria dos gêneros.

Os tais nove meses passaram. Para minha egoista satisfação, minha esposa não engordou durante a gestação. O nascimento estava previsto para o dia 10 de novembro. Minha esposa é contra a futilidade que se espalha entre mães e médicos de agendar cesarianas quando o único motivo é a conveniência social de um dos dois. Assim, a data de nascimento de nossa filha seria determinada pela natureza. Afinal, a gestação correu sem problemas e a criança estava na posição correta para o nascimento.

Amigos, parentes, colegas e desconhecidos fizeram suas apostas. Uns disseram que a bebê nasceria no dia 6 de novembro. Outros, como eu, que mais torci do que adivinhei, apostaram no dia 31 de outubro (Haloween, imaginem que legal seria!). Alguns escolheram o dia 2 de novembro, Finados. Inclusive minha filha.

O dia do parto foi digno de uma temporada de “24 horas”:

9h00 - Minha esposa reclama de discretas e irregulares dores.

11h00 – Cozinhamos carne moída, brócolis, arroz e feijão. Minha esposa cronometra o espaço entre as contrações e a duração e percebe que são irregulares demais para ser um parto.

12h00 – Almoço. As contrações estão um pouco mais fortes.

13h00 – Com a frieza que lhe é característica, minha esposa pesquisa na web e encontra um site que tem um aplicativo para contar intervalos e duração de contrações. Continuam irregulares.

15h00 – Ela resolve ir para debaixo do chuveiro. Se for trabalho de parto “falso”, o banho revelará.

15h20 – A dúvida é descartada. A intensidade das contrações aumenta e o intervalo entre elas diminui. Decidimos ir para o hospital. Pego documentos aqui, largo coisas ali…

17h00 – Quando chegamos ao Hospital Santa Catarina (acreditem ou não, mesmo com minha esposa contorcendo-se dentro do carro, o taxista sugeriu nos deixar na calçada, no lado oposto ao hospital… que fica na avenida Paulista!), vamos para a recepção da maternidade. A esposa vai lá para dentro, onde uma incrédula enfermeira faz o exame de toque para constatar a dilatação. Arregala os olhos e ordena que encontrem o médico plantonista. Minha esposa chegou ao hospital com dilatação total, clamando por anestesia.

17h10 – Mesmo sem terminar os procedimentos legais, pulo pelo corredor, calçando as proteções dos sapatos e amarrando a máscara. Mal chego na sala a tempo de ver minha filha saindo. Não entendi muito bem por que há pais que desmaiam nessa hora. É um espetáculo da natureza (com perdão ao clichê). Acompanho a equipe pediátrica que faz os exames iniciais. A menina chora e grita.

18h – Sou chamado para dar o primeiro banho em minha filha. Gostaria de dizer que estava emocionado, choroso e que uma luz se abrira à minha frente. Mas a tensão da tarefa obscuresce todos estes sentimentos nobres.

19h – Estamos os três no quarto. Catarina (esse é o nome que escolhemos há meses para ela) mama pela primeira vez.

Isso tudo aconteceu no dia 2 de novembro de 2010, uma terça-feira. Na sexta, recebemos alta e pegamos um táxi para casa. O motorista, para nosso azar, além de tagarela – e não tenho forma mais elegante de colocar isso -, falava muita merda!

Chegada típica. Malas espalhadas, bagunça, fome, medo, cuidado com os gatos…

A rotina é reestruturada à marra. A disciplina, mesmo caótica, é imposta. A inexperiência se torna evidente. Tudo isso faz com que o cérebro demore um pouco a assimilar. Mas, dois dias depois, acontece. Olho para minha esposa - transformada pela maternidade -, olho para meus gatos – inicialmente deprimidos pelo abandono de três dias e, agora, brincalhões -, observo minha filha, que corre os olhos ao redor, com expressão curiosa, a boquinha chamando pelo peito que a satisfaz e finalmente percebo que somos uma família. Não sei bem o que significa isso… quando souber, eu aviso.

11 respostas para Crônica de um nascimento

  1. Alba Milena disse:

    Adorei Walter!! A emoção que vc disse que não sabe bem se sentiu, transborda em cada palavra!!

  2. Ah, meu caro, ter diante de si uma vida nova deve ser realmente uma experiência fantástica. Imagino-me nessa correria daqui a alguns anos, mas não consigo discernir o quanto isso me alterará.

    Parabéns! E agora você me deve um charuto pelo nascimento. ;-)

  3. Robson Barata Gigante de Sorocaba disse:

    Faça tudo, TUDO que for preciso, mas nunca, NUNCA dê comida pra sua filha depois da MEIA NOITE. Você foi avisado.

    Robson – Pai da Lara

  4. Patati disse:

    A família Tierno está completa!
    Que lindo!!!
    Beijo a todos e parabéns!

  5. Patricia Buglian disse:

    Parabéns mais uma vez, o texto realmente está transbordando de emoções. Adorei!!!! Agora só falta plantar a árvore. rsrsrsrsrs. Bjs

  6. Roberta disse:

    É verdade meu amigo só falta plantar a arvore!!!! Muito legal e bem descrita todo acontecido e o melhor a Catarina agora vai alegrar a vida de vcs!!!! Que Deus ilumine todos….

  7. Ana Gabriela disse:

    Linda a menina Walter!! Super parabéns para vcs!!

  8. Manoel disse:

    Meu caro amigo, parabéns a vocês por esse presente divino. Ser pai é um emoção muito grande e somente sendo para entender e conhecer parte da emoção. Não há manual e cada fase é um aprendizado, uma conquista, uma comemoração à parte. Portanto, aproveite bastante cada uma delas. Realmente o que você disse sobre assistir o parto é verdade. Acho que todos os pais deveriam estar presente nessa hora, mesmo aqueles que acham que vão desmaiar ou que vão sair gritando ao ver a esposa lá na mesa de operação. Sinceramente a emoção é tão gigantesca que essas coisas passam e você nem percebe. Vi minhas duas filhas nascendo e esse é um filme que não fica velho e não canso de assistir de novo em minha mente, e o que é melhor, nem precisa de aparato eletrônico, basta acessar a memória.
    Grande abraço. Apesar de não ter manual, se precisar de algumas dicas, dá um berro, rsrs.

  9. Cristiane disse:

    Parabéns amigo! Deve ser muito massa!!! Mal posso esperar pela minha vez!
    Beijos e felicidades com a Catarina.

  10. Deise Aneli disse:

    Parabéns Papito!

  11. Parabéns, pai Babão! Dani e eu estamos muito felizes por vocês!

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