Continuando, aqui está a entrevista que fiz para o blog Bookaholic:
O convidado da vez para participar do nosso Bate Papo é o querido Walter Tierno, autor de Cira e o Velho. Jornalista, publicitário, desenhista e escritor ele respondeu algumas a algumas perguntas e vocês conferem logo abaixo! Senhoras e senhores, com vocês, Walter Tierno (que agora também responde como papai da Catarina
)

1) Walter, seu livro foi bem significativo pra mim porque alem da história ser conduzida de uma forma super interessante, trata de um tema que gosto muito mas que nunca imaginei que poderia virar um livro fantástico: o folclore brasileiro. Eu gostaria de saber qual sua relação com o folclore, que tipo de estudos e pesquisas você fez para escrever o livro?
Eu não imaginava, sinceramente, quando estava escrevendo o livro, que o fato de utilizar o folclore brasileiro seria recebido com resistência, preconceito e, por vezes, até com escárnio. Talvez as pessoas estejam muito presas às imagens marteladas em suas cabeças pelo sistema de ensino brasileiro, que não é nada atraente, para dizer o mínimo. Quando têm contato com meu livro, a primeira coisa que passa na cabeça das pessoas são seus trabalhos escolares com folha mimiografadas ou xerocadas, lápis de cor, cola e purpurina. Ou ainda os personagens de Monteiro Lobato no Sítio do Picapau Amarelo. Por algum motivo, ficou estigmatizado que lendas brasileiras são bobas, infantis e que só merecem destaque em livros paradidáticos. Uma pena.
Minha relação com o folclore é igual à de toda minha geração, acredito. Sou um típico nerd de quase quarenta anos de idade, que recebeu educação histórica e sociológica deturpada pelo regime militar ou seus adversários e teve fortíssima influência da cultura norte-americana. Se tenho alguma relação mais íntima com a cultura brasileira, provavelmente ela me foi passada por minha mãe, típica filha de imigrantes italianos que cresceu no interior e ouvia muitas histórias de assombrações…
A pesquisa que realizei para o folclore foi bastante restrita. Concentrei-me no trabalho de Câmara Cascudo e a alguns sites especializados na internet. Para a construção dos fatos históricos, aí sim, fiz uma pesquisa mais aprofundada. A bibliografia básica pode ser encontrada no site do livro (www.ciraeovelho.com.br/notas)
2) Qual seu personagem favorito do folclore? Se por um momento pudesse encontrar com ele e fazer uma pergunta, qual seria? E se você pudesse apresentar um outro personagem fictício para este primeiro, quem seria e por que?
Meu personagem favorito é, sem dúvida o Cobra Norato. Eu perguntaria a ele: Temos salvação?
A ele eu apresentaria um vampiro. Só pelo prazer de vê-lo matando o miserável.
3) Seu livro em alguns momentos mistura fantasia e realidade uma vez que você não criou um universo novo mas se apoderou de um fato histórico para desenvolver toda a trama em cima dele. Em alguns comentários no blog, vi observações do tipo “nossa, eu odeio história e nunca me interessei por folclore mas quero muito ler esse livro”. Como é para um autor ver que sua obra esta indo muito além do conceito de entretenimento de certa forma mudando conceitos e impressões sobre outras coisas.
Não é minha intenção levantar bandeiras. Seria uma hipocrisia imensurável. A intenção do livro é divertir e mostrar que é possível, sim, entreter utilizando elementos do folclore nacional, mas, principalmente, da história brasileira. Esta, liberta dos ufanismos, das mentiras e manipulações orwellianas, pode dar origem a romances sensacionais, sejam de fantasia ou não.
4) De um tempo pra cá tivemos um “boom” de blogs literários e muitos autores têm procurado estes veiculos para atingir seu publico especifico deixando que o blogueiro “venda seu peixe”. Você é publicitário, ilustrador e jornalista então definitivamente entende sobre mídias, divulgação e tudo mais. Gostaria de saber o seu ponto de vista como profissional da área de publicidade e como autor, como os blogs interferem positiva e negativamente na divulgação de um livro.
Na verdade, a utilização dessa mídia é totalmente nova para mim. Estou aprendendo. Felizmente, aprendo rápido… Os blogs são uma ferramenta importantíssima. Mas o que mais me atrai não é tanto o resultado. É a própria relação que se estabelece entre blogueiros e autores. Com blogueiros com quem fecho parcerias, acabam surgindo laços de amizade e isso é o mais bacana. Claro que existem casos e casos. Eu sempre analiso blogs que me procuram ou que são indicados. Existe, sim, muita gente por aí que só cria blog com a intenção de ganhar livro, e isso é muito chato. A linguagem dos blogs também é muito interessante. Enquanto na imprensa convencional existe uma película de imparcialidade e apresentação fria de fatos, os blogueiros são escancarados em suas opiniões e é isso o que os leitores querem. Querem saber como foi a experiência de pessoas parecidas com eles. Para se ter uma ideia, fui citado em uma matéria bastante generosa no Jornal da Tarde. Não resultou numa só venda de livro. Isso só aconteceu quando começaram a surgir as resenhas nos blogs.
5) Em certos momentos da história você pegou lendas conhecidas do folclore como Curupira por exemplo e de certa forma trouxe-os para nossa realidade; se a Cira viesse parar em São Paulo, como seria essa visita e ocupando um papel de guia turístico, onde você a levaria?
Cira é muito viajada e vivida… ela é que seria guia turístico e me levaria para cantos da cidade que nunca imaginei existirem.
6) Teremos uma continuação para Cira e o Velho? Está trabalhando em algum livro novo? Algo que possa nos adiantar a respeito?
Embora eu tenha o bom senso de fazer com que Cira e o Velho seja um livro independente, com começo, meio e fim, pretendo escrever outro sobre Cira. Estou no processo de pesquisa dos fatos históricos em que quero ambientar o livro. É um trabalho demorado. Paralelamente, estou trabalhando em outra história, esta é urbana e não tem nada a ver com Cira. Também tenho uma ideia para uma ficção científica, mas nem comecei o processo de pesquisa para essa história, então… vai demorar um bocado.
7) Cite três escritores nacionais e três internacionais que você admira. Que livro e/ou autor você acha que todos deveriam ler pelo menos uma vez na vida?
Nacionais: Erico Veríssimo, Jorge Amado e Eduardo Bueno. Internacionais: Frank Herbert, Bernard Cornwell e Neil Gaiman. Um livro que todos deveriam ler (embora não goste muito do termo “deveriam”) é “1984″, de George Orwell.
8) Você se considera um “Bookaholic”? Prefere ler ou escrever? Qual foi o ultimo livro que você leu e o último que comprou?
Sou um bookaholic… embora possa ser considerado muito mais como um “quadrinhoholic”. Prefiro ler, claro. Escritores leem mais do que escrevem, acredito. O último livro que li foi “1808″, de Laurentino Gomes, e o último que comprei foi “Necrópolis”, do colega Douglas MCT.
9) Sua filhinha acabou de nascer, então queria saber, que histórias e personagens você vai fazer questão de apresentar para ela durante a infância? Você acha que o hábito de leitura é algo que os pais introduzem nos filhos desde cedo ou é algo que simplesmente cada um desenvolve (ou não) sem influencia alguma?
Vou fazer Catarina se interessar por leitura através dos quadrinhos, como aconteceu comigo. Tenho até alguns álbuns de Asterix que guardei especialmente para ela. Claro que ela pode simplesmente ignorar isso e partir logo para livros… quem sabe o que o futuro reserva? O hábito da leitura não é realmente introduzido. Filhos de pais leitores leem porque as crianças imitam os pais. Não existe esse negócio de “faça o que digo, não faça o que faço”. Todas as suas atitudes influenciam muito mais seus filhos do que qualquer palavra. Felizmente, aqui em casa, eu tenho hábito de ler e minha esposa lê até mais. Então, é provável que Catarina se torne uma leitora voraz. Espero…
10) Muito obrigada pela participação Walter! Gostaria de deixar uma mensagem final aos leitores do Bookaholic?
Aos leitores: Deem uma chance ao que sai do lugar-comum. Aos autores: saiam da zona de conforto. Aos autores iniciantes: tenham mais paciência.
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