Este é um blog com nome bem criativo. Essa resenha foi publicada em 19 de novembro:
Resenha: Cira e o Velho
Cira e o Velhode Wlater Tierno,
Giz Editorial.
Cira e o Velho me ganhou pela capa. Logo de cara. A curiosidade foi tanta que tentei ganhar algumas promoções, mas a sorte não estava do meu lado. Não até o Walter Tierno, o autor do livro, me enviar um exemplar para resenha. Graças a isso pude perceber que meu grande erro foi ter me apaixonado pela capa… Deixei-a de lado para me apaixonar pela história.
Já no início somos apresentados ao narrador e seu fascínio pela figura e história de Cira. E tudo por causa de uma figurinha ganhada no bafo. Me permito uma pausa para dizer que sou uma apaixonada pelo Brasil a despeito de todos os problemas. Ter a oportunidade de mergulhar em uma história do nosso folclore de forma tão intensa e fascinante foi uma experiência incrível. Devorei o livro o mais rápido que pude.
Mas, voltando ao que interessa… Através da peregrinação de nosso narrador atrás de Cira vamos conhecendo personagens incríveis e histórias de cair o queixo. Cira é filha da bruxa Guaracy e de cobra Norato, um camarada nascido de uma índia. Ele e sua irmã gêmea, Maria Caninana, conseguiram escapar da morte que o marido de sua mãe impôs ao pegá-la amamentando duas cobrinhas.
Mas os irmãos seguem caminhos bem diferentes em suas vidas. Enquanto Norato se envolve e tem filhos com 14 amantes – das quais Guaracy é a favorita –, Maria Caninana desenvolve seu lado mais cruel [para não dizer cobra, hahaha] e faz um pacto com o Senhor das Mentiras para conseguir se vingar do assassino de sua mãe. Em troca? 28 almas – 14 de seus filhos e 14 dos filhos de Norato… E Cira seria uma delas.
O peculiar é que, antes mesmo de descobrirmos tudo isso, conhecemos o vilão da história, o paulista Domingos Jorge Velho. Escrúpulos? Zero. Ganância? Muita. Essa combinação nunca é boa – seja para os “mocinhos” ou para o próprio vilão.
E é justamente aí que mora o perigo. A prepotência de Velho é o estopim de seus futuros problemas e o “start” da verdadeira história. Graças à ela podemos conhecer melhor Guaracy – que vai até as últimas consequências para salvar a filha – e a própria Cira que, humilhada, violentada e morta só pensa em vingança. [Você não leu errado, ela morre... Mas quem disse que a Morte quer a alma dela?]
Tenho muito medo de continuar falando e dar muitos spoilers da história – apesar de que, no caso de Cira e o Velho, toda a graça está em como as coisas acontecem. Acho que deu pra deixar claro que o Paulista é o escolhido para matar Cira. Mas não sei se consegui deixar claro como Cira é tinhosa e difícil.
Nossa heroína (muitas vezes às avessas) é extremamente passional, impulsiva, cruel e, ao mesmo tempo, doce, paciente e muito querida. O problema é que seu desejo de vingança é mais forte que qualquer coisa e Cira faz de tudo para conseguir o que quer. Isso inclui matar pessoas, chorar a morte de crianças inocentes, viajar meses e meses com a jovem amante de seu pai e até se envolver na guerra de Palmares. Essa mesma, a do Zumbi.
Acompanhar as aventuras – e desventuras, por que não? – de Cira e Nhá pelas entranhas do país foi extremamente prazeroso. Não posso deixar de destacar as participações dos animais-reis (destaque maior ainda para Tatu e Gavião), dos ex-escravos quilombolas e do crânio de Norato que acompanha a filha em sua peregrinação.
Peço desculpas por não ser capaz de expressar de forma melhor o encanto que o livro causou em mim, mas vocês já sabem que sempre que gosto demais de algo fico assim.
Antes de me despedir preciso dizer uma coisa: que final! Sério, fiquei completamente chocada. Adorei, adorei! ;x
E juro que esse vai ser o último breve comentário: as ilustrações que fizeram eu me apaixonar pela capa seguem por todo o livro. Cada desenho do autor traz mais graça ainda ao livro. Muito talentoso.
Cira e o Velho é um livro para quem ama a cultura brasileira, para quem adora folclore, para quem curte muito literatura nacional, mas especialmente para aqueles que viram a cara para tudo isso. Se dê a oportunidade. Garanto que vai se surpreender e se encantar com Cira, dona Nhá, Norato, Guaracy, o Velho e toda uma infinidade de personagens bem construídos e cheios de aventuras, mistérios e dualidades.
OBS¹: Deixo registrado meu agradecimento especial ao autor. Walter, espero ter feito justiça a sua história fantástica. Realmente adorei e me senti honrada em lê-la. Muito obrigada.
OBS²: Quero agradecer também a fofa Alba, do Psychobooks, que leu a resenha antes de eu publicar. Muito obrigada, querida! Aproveito para deixar o link da resenha que ela fez do livro – minha favorita, aliás. Leia aqui.


