A diferença de hipocrisia entre uma e outra pessoa não é medida por números absolutos, por “sim, sou hipócrita” ou “não, não sou hipócrita”. Somos todos. A diferença reside em graus. Quanto você é mais ou menos hipócrita. Mesmo os vegetarianos, em algum momento de suas vidas, consomem algo que causou sofrimento a um animal. Um vegano acometido por uma infecção vai realmente recusar um antibiótico? E muitos animais sofreram no processo de produção daquele remédio.
Um certo nível de violência acaba sendo aceito em nome da nossa sobrevivência. Mesmo que eu fosse vegetariano (coisa que, como bom hipócrita, não sou), ainda daria carne para meus gatos. Alguém provavelmente contra-argumentaria dizendo que bastava eu não ter gatos e coisa e tal… Ok, meu amigo, você é menos hipócrita do que eu e, assim, vamos seguindo nossa jornada neste planeta ao mesmo tempo hospitaleiro e hostil.
Digo tudo isso para me posicionar sobre limites. Eu como carne de boi, mas não preciso que ele seja torturado para que eu consuma sua carne. Não preciso que ele sangre até a morte em uma arena, sob urros insanos de sádicos. Eu vestirei seu couro, mas ele não precisa ser esfolado vivo para isso. Como também não preciso da pele de nenhum outro animal. Se o boi já é criado e sacrificado para esse fim, para que incluir um pobre roedor de pele macia que será esfolado vivo? Hipocrisia? Claro, não neguei. Mas para tudo há limites.
Limites que estão sendo inescrupulosamente ultrapassados em um programa de televisão chamado “Hipertensão”, da Rede Globo. Não sei dizer dia e horário, e nem me interessa – não vou ajudar a aumentar sua audiência, mesmo que seja com um ou dois curiosos.
Em um episódio do qual tomei conhecimento pela internet, três participantes são colocados diante de três potes, previamente sorteados. Dentro de um dos potes, baratas vivas. No outro, gafanhotos. No terceiro, filhotes de ratos mortos. Ratos de laboratório.
Eu, assim como o vegano que mencionei no começo do post, em caso de necessidade, também tomarei o antibiótico que só chegou às minhas mãos à custa das vidas dos animais de laboratório. Mas esses animais morrem para salvar as vidas de pessoas – e de outros animais também. Não morrem, ainda filhotes, somente para satisfazer o sadismo dos espectadores entorpecidos que se divertem com esse show de horrores. Tenho certeza de que quem tem roedores de estimação (ratos, porquinhos-da-índia, hamsters) ficará ainda mais enojado ao ver aqueles filhotes mortos sendo engolidos pela loira que quer ser uma celebridade vazia a qualquer custo. Aliás, há outra coisa a ser dita sobre os participantes desse tipo de programa?
Faz-nos questionar os caminhos altamente perigosos que a televisão está trilhando. Não nos basta mais a ficção, utilizada para questionar através da encenação, cutucando medos, nojos, alegrias ou esperanças. Estaremos tão anestesiados a ponto de só nos satisfazer através da estética dos lendários snuff films? Para que morreram aqueles filhotes todos? Aqueles insetos? Para alimentar alguém? Para curar alguma doença? Não. Apenas para satisfazer uma necessidade altamente questionável de diversão.
Escrito por waltertierno 















