Em um post anterior, manifestei preocupação com a produção de um filme de Watchmen, a genial obra de Alan Moore (http://waltertierno.wordpress.com/2008/08/02/watchmen/). Zack Snyder, o diretor, já havia trabalhado com outra adaptação de quadrinhos: 300. Admiro o trabalho de Frank Miller, o autor de 300, mas tenho a devida consciência das “liberdades artísticas” que ele tomou em sua visão da batalha de Termópilas. Zack Snyder apanhou essa visão e a apresentou como um videoclipe épico. Você pode odiar ou adorar o filme. Pode admirar ou esculachar o trabalho de Frank Miller, mas o que não se discute é que as inserções feitas pelo diretor Snyder destoaram completamente tanto da linguagem proposta pelo filme quanto das intenções de Frank Miller e não contribuíram em nada com o espetáculo. Na verdade, foram mesmo constrangedoras.
Eu temia que o mesmo acontecesse com Watchmen. Que as adaptações, inserções ou cortes que Snyder realizasse acabassem por desfigurar completamente a obra que é, sem exagero, um marco na história das histórias em quadrinhos. Seja de super-heróis ou não.
Tirando o fetiche que Snyder parece ter por cenas de ação em câmera lenta e violência explícita, é bom ver que ele não cometeu o pecado que eu já estava dando por garantido. E isso é muito mais do que se pode dizer, hoje em dia, de adaptações cinematográficas, seja de livros, histórias em quadrinhos ou qualquer outro veículo.
Watchmen, originalmente, tem vários níveis de leitura. Existe a história dos Homens-Minuto, que apresenta a morte da inocência, o Cargueiro Negro, que tem ligações metafóricas com a história principal, a dos Watchmen. Snyder escolheu concentrar-se na história principal. Os Homens-Minuto são apresentados, mas de forma bem mais superficial do que nos quadrinhos. A verdade é que certos detalhes não caberiam nunca em um filme.
Ok, o Coruja não é mais aquele barrigudo de meia-idade, a Espectral não fuma um cigarro a cada minuto, os uniformes não têm aquele colorido ingênuo que contrasta com a decadência moral e social de um mundo à beira de uma guerra nuclear. O ferimento no rosto do Comediante não o transfigurou como nos quadrinhos. Os heróis lutam como artistas marciais saídos de algum filme de Jet Li. Mas nenhuma dessas mudanças compromete a adaptação. São detalhes.
Além disso, sem querer estragar a surpresa de ninguém, vale dizer que o final difere dos quadrinhos e pode mesmo frustrar algum fã mais radical. Mas a ideia está lá, preservada e cruamente apresentada.
Como adaptação, Watchmen é válido. Meu temor não se justificou totalmente. Consegui realmente ver aquelas páginas que tanto admiro ganharem vida de uma maneira respeitosa na tela do cinema. Claro que a obra original de Alan Moore é muitas vezes superior.
Raros são os filmes que eu indico sem restrições, com a máxima convicção de que são obras imperdíveis. Lamento dizer que Watchmen não é um deles. Há restrições. Em primeiro lugar, não é um filme de super-heróis descerebrado, para diversão fácil. Então, se é isso que você procura (lamento por isso, na verdade), não gaste seu dinheiro com Watchmen. Também não é um tratado de filosofia e sociologia, nem uma obra-prima cinematográfica. Não tenha expectativas altas a esse respeito. Arrisco dizer que ele irá dividir opiniões e pode mesmo vir a ter problemas de bilheteria. Isso só o tempo poderá mostrar.
No caso do filme, portanto, não digo “vá” nem “não vá”. Decida por sua conta e risco.
Aqui vale uma observação ácida: A frase de venda do filme, “do visionário diretor de 300”, é para lá de pretensiosa.
O que posso realmente indicar, como já fiz anteriormente, é a obra original.
A Panini (finalmente!) lançou Watchmen em duas versões. Uma em capa dura, para livrarias. Na Fnac e na Saraiva sai por uns R$ 94,00. O preço original sugerido é de R$ 120,00. A outra é para bancas. O miolo em papel jornal e em dois volumes, cada um a R$ 28,90.


