Ranxerox voltou.

agosto 31, 2010

Entre as editoras que apostam na tendência dos quadrinhos migrarem para as livrarias, a Conrad é a que mais acerta em suas apostas. Lançaram a coleção completa de Sandman (se você não pegou, agora é só a da Panini… que vale), as séries “O Clic” e “Os Bórgia”, as parcerias entre Manara e Pratt: “Verão Índio” e “O Gaúcho”, diversos volumes de Crumb, “Valentina” de Crepax… enfim, uma série de boas aquisições para qualquer gibiteca.

O lançamento mais recente deles é um volume que eu não conseguiria avaliar sem uma impressão muito pessoal: “Ranxerox”.

A primeira vez em que tive contato com essa história, foi nas páginas da extinta e saudosa revista “Animal”. A publicação era um oásis no mercado de quadrinhos dos anos 80. Uma versão tupiniquim muito mais corajosa e sensacional da Heavy Metal. Trazia em suas páginas verdadeiras pérolas dos quadrinhos italianos, espanhóis, franceses e latino-americanos.

A Animal não chegou a publicar a série completa de “Ranxerox”. Brasileiros que quisessem ler material inédito tinham que apelar para caminhos praticamente arqueológicos, entre sites e sebos, ou à publicação em inglês, lançada pela Heavy Metal.

A garimpagem acabou.

A Conrad reuniu toda a saga, além das primeiras histórias publicadas, uma introdução histórica caprichada, muitas ilustrações extras e tudo isso devidamente encadernado em um livro de capa dura.

Não faz sentido eu contar aqui a história da origem de Ranxerox, ou mesmo as biografias de seus autores. Leia isso quando tiver seu volume nas mãos. Porque você tem que conhecer Ranxerox. Engula sua moral, abrace o bizarro e deixe-se levar pelas aventuras ultra-violentas deste robô assassino, viciado e pedófilo. Se existe alguma obra que poderia ser chamada de visceral, é Ranxerox. E estou falando no sentido literal. A cada página tem um corpo brutalmente desfigurado, alguma canalhice, alguma imagem que visa embrulhar seu estômago. Tudo no mais desconcertante traço realista que já tive o prazer de conhecer.


Voltando ao normal

agosto 28, 2010

Ok, eu sei que ando falando muito sobre “Cira e o Velho”. Mas vocês vão ter que perdoar minha obsessão. Não é todo dia que se lança um livro, não é? Vamos falar um pouco sobre quadrinhos, novamente, para não perder o (bom) hábito.

Acabo de receber uma encadernação de “Ultimate Avengers”. Trata-se do que poderíamos chamar de “quarta temporada” dos “Ultimates”. Depois de dois volumes escritos por Mark Millar e desenhados por Brian Hitch e que resultaram em um dos quadrinhos de super-heróis mais bacana e divertido dos últimos anos, a Marvel resolveu entregar o terceiro volume na mão de Jeph Loeb. No mínimo, um erro. Além do escritor apresentar uma sequência desinteressante, sem um pingo do carisma anterior e simplesmente boboca, ainda insultou o leitor com uma das sagas mais estapafúrdias que tive o desprazer de ver: Ultimatum. Uma desnecessária desconstrução do universo “Ultimate”, que a Marvel havia criado para apresentar novas versões de seus heróis clássicos. Não sei dizer qual foi a intenção de Quesada, o editora da Marvel. A impressão que fica é que ele está tentando sabotar a linha. Seria uma pena, não de todo inesperada, já que a promissora “Marvel Max” anda cada vez mais esquecida.

Enfim, as águas baixaram e Mark Millar voltou a trabalhar com a versão ultimate dos “Avengers”. Equilibrand0-se sobre a montanha de bobagens que seu antecessor construiu, ele até que consegue criar uma história que lembra bastante suas primeiras versões de “Ultimates”. Tem ação, violência, exageros sensacionais e empolgantes, diálogos afinados e diversão. Enfim, parece que é o “Ultiverso” voltando ao normal… embora Loeb permaneça como uma ave de mau agouro pairando sobre a linha.

Vale lembrar que os desenhos de Carlos Pacheco estão muito bons.


Devoção à história

junho 5, 2010

Na tradição oral, na literatura de cordel, nas biografias que enaltecem e nas que denigrem, a vida e história de Padre Cícero ganhou contornos de lenda. Como é comum a muitas lendas, a do Padim Ciço carrega consigo a injustiça dos exageros e das inverdades. A simples verdade sobre a vida deste personagem histórico já seria suficiente para maravilhar a imaginação de qualquer espectador ou leitor. Claro que não seria o bastante para devotos fervorosos, que atribuem ao padre cores de santo milagreiro.

Nos últimos anos, o avanço das igrejas neopentecostais simplesmente apavorou o Vaticano, que se viu forçado a revisar fenômenos que, anteriormente abolidos como hereges, hoje servem como salva-vidas da fé católica. Um aspecto positivo desse revisionismo de fé foi o aparecimento de farta documentação sobre Cícero. Aproveitando-se disso, o jornalista Lira Neto construiu uma biografia baseada em cartas trocadas entre Cícero e seus superiores eclesiásticos, documentos enviados e recebidos não só pela igreja, como também os de ordem executiva e legislativa e a cobertura da imprensa da época.

O resultado foi um livro em duas partes que apresenta não apenas vida e obra do religioso, mas também de personagens que orbitaram ao seu redor.

Na primeira parte, os detalhes conturbados da vida religiosa de Cícero, sua infância, a formação eclesiástica, a posição bravamente aceita de pároco da vila que ajudou a transformar na Meca do romeirismo nordestino, bem como a defesa teimosa que fez do milagre da transmutação de hóstias em sangue na boca de uma beata.

A segunda parte trata do apoio quase involuntário (?) que deu à força juazeirense, responsável pela queda do presidente do Ceará (à época, os líderes estaduais eram presidentes, não governadores). Aborda também seu ingresso na vida política.

Não por acaso, a primeira parte se chama “Cruz” e a segunda, “Espada”.

Os mais impacientes provavelmente reclamarão do ritmo pesado e dos acontecimentos desinteressantes descritos. Principalmente do livro “Cruz”. Um vai-e-vem sem descanso para Cícero, que teimou em defender a origem divina das hóstias sangrentas.

Uma vez entendida a importância de expor a origem da devoção sertaneja ao padre, o resto é bem mais fácil. Tanto para o leitor quanto para o próprio processo histórico. A “Espada” descreve a guerra sertaneja, formada por cangaceiros e jagunços, que tinham no Padim mais do que um santo, uma figura mágica, dotada de poderes sobrenaturais.

Já o livro de Lira Neto nada tem de sobrenatural. É um trabalho de admiração por um personagem controverso, real e fascinante. Um filho do sertão que, embora tivesse estudado as complexidades teológicas da Igreja católica, manteve-se próximo ao misticismo simplório de suas raízes.

Procure “Padre Cícero”, de Lira Neto, editado pela Companhia das Letras. Livro para ler e reler.


Com grandes poderes, péssimas escolhas.

maio 12, 2010

A Panini está lançando uma série de encadernados de minisséries da Marvel. O primeiro foi “Homem-aranha: Com grandes poderes…” que reconta e amplia as histórias do tempo em que Peter Parker era um ambicioso lutador de luta-livre. O texto é de David Lapham e os desenhos do quase sempre competente Tony Harris, o mesmo de “Ex Machina”. Digo “quase” porque, no capítulo final deste encadernado, a qualidade de seu traço sofreu uma queda considerável. Justiça seja feita, não dá para culpá-lo. A história é de uma irrelevância completa. Você precisa ser muito, muito, mas muito fã do Homem-aranha para gostar dessa edição. Não empolga, não acrescenta, não diverte, não vale nada. Tenta se vender como uma curiosa coletânea dos elementos que, mais tarde, ajudarão na decisão do herói em se tornar um combatente do crime e bem-feitor, amigo da vizinhança. Não é! É apenas uma história chata, sem emoção, sem a menor capacidade de criar empatia, sem nada. Não fará a menor falta na sua gibiteca.

Também já está disponível o segundo número dessa série de especiais: “Capitão-América: A escolha”. Se o do Homem-aranha é um festival de irrelevância, este aqui traz uma verdadeira batalha dos autores, David Morrell e Mitch Breitweiser, para encher linguíça. Chato até o limite da sensatez, piegas, ufanista, inútil. Na trama, o soro que transformou o franzino Steve Rogers no super soldado conhecido como Capitão-América também o está matando. Para continuar sua luta, o paladino da liberdade se submete a uma experiência que acaba por dotá-lo do poder de se comunicar telepaticamente. Ele usa este poder para, moribundo, levantar a moral de um soldado que está em uma situação complicada no meio da guerra do Iraque. Se o argumento já não parece lá muito promissor, o resultado então… Uma minissérie de 5 edições que não precisaria mais do que 2 para contar uma historinha constrangedora que não faço ideia de onde se encaixa na cronologia do herói. E, sinceramente, não faço a menor questão de saber. Se você quer ler uma história interessante sobre a criação do soro do super soldado, prefira “Truth”, onde é revelado que os primeiros a experimentarem o procedimento foram soldados americanos negros. Essa, sim, uma história intrigante e com um interessante comprometimento político-social.

Já a  ”Capitão-América: A escolha”… deixe para lá. Também não merece um lugarzinho na sua estante. Ainda tem mais 3 ou 4 números desses especiais da Marvel para sairem. Eu dei chance a dois e me arrependi. Provavelmente, não vou conferir os próximos, pois imagino que a qualidade segue esse padrão constrangedor.


Vertigens

abril 26, 2010

Se você é fã de quadrinhos, provavelmente, assim como eu, comemorou efusiva e precocemente quando a Panini anunciou que publicaria títulos da Vertigo no Brasil. Depois de passar por editoras aventureiras, que não conseguiram dar a devida continuidade ao trabalho, ver a líder de mercado assumir a responsabilidade deu alguma esperança aos leitores brasileiros. Passado o entusiasmo, dá para colocar os pés no chão e perceber que não é garantia de nada. Claro que o sucesso ou não da empreitada, ironicamente, depende daqueles que mais cobram: Os leitores. Afinal, se não tem para comprar, reclamam. Se tem, reclamam que está caro. Se a qualidade gráfica cai para melhorar o preço, reclamam mais um pouquinho. Se a publicação para, reclamam de novo. E tudo isso regado a muito download de scan, que não tem qualidade de tradução e gráfica… Bem, como poderia, já que não passam de jpgs? Para quem reclama do papel jornal, o scan é tão mais vantajoso assim? Essa postura bipolar do mercado faz o setor ser um verdadeiro risco.

Mas deixemos essas mazelas de lado. Acredito que já dê para avaliar o trabalho que a Panini vem fazendo com a Vertigo.

Y – O Último Homem: Pena que foi publicado em capa cartonada. Pelo menos ficou mais acessível. Isso se refletiu nas vendas. Esgotou. Quer saber? É merecido. Eu tenho acompanhado os encadernados em capa dura americanos. Lá fora, já terminou, mas ainda não cheguei nesse ponto. Até onde li, vale a pena. E bastante! Pode não ser um primor no visual, mas não deixa de ser competente e tem um texto sensacional. Se você perdeu o primeiro volume, trate de correr atrás.

ZDM: Foi lançado ao mesmo tempo que Y. Não entendi por que este mereceu capa dura e Y, não. É interessante. Desenhos ótimos, mas nada excepcionais. A história não é lá muito empolgante. Um estagiário de jornalismo que acaba no meio da zona desmilitarizada que virou Nova Iorque, após uma nova guerra civil nos EUA. De lá, ele transmite o dia a dia. Tem momentos bem chatinhos e é bem difícil você sentir alguma empatia pelos personagens.

Fábulas: Seguindo a linha de histórias fantásticas da Vertigo, trata do cotidiano dos personagens de fábulas que, tendo seu país natal conquistado por um inimigo misterioso, reconstruíram suas vidas em um bairro de Nova Iorque. O argumento parece bobo, mas a força da obra está na condução e nas situações inusitadas em que os personagens são colocados. A Panini está começando do quarto volume. Espero que cumpram a palavra e relancem os anteriores, que foram publicados pela Devir e pela finada Pixel.

Preacher: Se você é fã de quadrinhos, este aqui não precisa de introdução. Um dos melhores trabalhos de Garth Ennis (se não for o melhor!). A Panini também está lançando um encadernado no meio da história, seguindo o que já foi publicado pela Devir e pela Pixel. Só que, desta vez, com um tratamento gráfico completamente diferente das antecessoras. É bom que republiquem os primeiros volumes também.

Transmetropolitan: Confesso que não conhecia esse. Só de nome. Nunca tinha lido nada. O primeiro volume me surpreendeu. Tem uma visão de futuro um pouco atrasada, talvez por ter sido escrita lá na década de 90, mas é bem legal. O personagem principal, um jornalista maldito, é engraçado e envolvente. Ninguém com quem você gostaria de dividir um apartamento, mas muito divertido de se ver em uma boa história em quadrinhos. Não é uma obra fácil de recomendar.

Vertigo: O mix de séries que a Panini resolveu colocar nas bancas. Estão publicando Tessália, Lugar Nenhum, Vikings, Hellblazer e Escalpo. Desses, Escalpo é um representante da nova linha da editora americana, que pretende deixar um pouco de lado os mundos de magia e investir mais em histórias de crime. Hellblazer tem seus altos e baixos. Tessália é mais um pouco do universo de Sandman expandido. Embora eu seja fã de Sandman, considero essas tentativas de retomar seu sucesso completamente dispensáveis. Lugar Nenhum é uma quadrinização de um livro de Neil Gaiman. Funciona bem melhor no livro, embora essa parte da carreira de Neil Gaiman mereça um comentário a parte: Ele escreve muito bem, mas tem uma tendência chata de estender demais seus livros, incluindo cenas irrelevantes. Não é o caso de Lugar Nenhum, mas American Gods e Anansi Boys estão cheios dessas irrelevâncias. Vikings é o melhor. Ficção histórica em quadrinhos. O primeiro arco que está nas bancas não é dos melhores. O próximo é bem mais empolgante.

Sandman: Desespere-se se você for um daqueles que deixou o volume um de Sandman da Conrad passar e procurou como um desesperado há um ou dois anos, pagando uma pequena fortuna para completar sua coleção. A Panini está relançando a série. E com o conteúdo da edição Absolute americana. Ok, a versão americana é mais luxuosa e maior, mas a brasileira não faz feio, não. Inspirado pela falta de cuidado com o acabamento de alguns encadernados recentes da Panini, eu estava receoso de ver edições de Sandman com páginas caídas. Folheei um na livraria e percebi que houve bastante capricho. Se você não fez sua coleção da Conrad ou deixou alguma lacuna, a hora é essa. Esqueça aquelas ediçõezinhas mequetrefes da Pixel. Tire o escorpião do bolso e vá atrás dessa nova oportunidade de ter um dos grandes quadrinhos do século passado na sua estante… e com estilo!

Loveless – Acabou de chegar às bancas. Um faroeste bem interessante. Esse eu vou acompanhar… se a Panini não pisar na bola!

Losers – Deu origem a um filme que está para ser lançado. Já li três capítulos até agora e confesso que não me empolgou em nada. Espero que melhore. Mas não boto fé.

100 balas – Mesmo caso de Preacher e Fábulas. Estão continuando o que outras editoras começaram. É a primeira série policial da Vertigo e que abriu caminho para o gênero na editora. Dá para considerá-la mãe de Escalpo, Losers e Crime. Valeria a Panini republicar desde a primeira. Tem muita gente por aí esperando para ler a série até o fim.


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