ATENÇÃO: Este post está cheio de spoilers. Leia por sua conta e risco!
Se você ouviu falar de “The Surrogates” (Substitutos) apenas como o novo filme de ação e efeitos especiais estrelado por Bruce Willis e que não tem sido bem recebido pela crítica especializada (http://www.omelete.com.br/cine/100022947/Critica__Substitutos.aspx http://pipocacombo.virgula.uol.com.br/critica-substitutos/ http://cinema.cineclick.uol.com.br/criticas/ficha/filme/substitutos/id/2279 http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=7491&id_filme=6079&aba=critica), preste atenção, pois você pode estar deixando passar a oportunidade de curtir uma boa história. Não a do filme, claro…
“The Surrogates”, originalmente, é uma graphic novel. Foi escrita por Robert Venditti e desenhada por Brett Weldele. Na história original, que ocorre em 2054, quase todos os adultos trancam-se na segurança de suas casas e operam robôs através de aparelhos que ligam suas mentes às máquinas. Assim, eles experimentam os estímulos do ambiente a que os robôs são expostos, sem se preocuparem com ferimentos ou doenças. Uma versão hardcore do Second Life. Entretanto, a destruição inusitada de um casal desses robôs leva o detetive Harvey Greer a se envolver numa conspiração que envolve o criador dos robôs e o líder religioso de uma comunidade que renega a utilização dos ”substitutos”.
Se, nos quadrinhos, o detetive luta para evitar o desligamento de todos os robôs e uma consequente mudança no confortável modo de vida que eles proporcionam, no filme, Bruce Willis tenta a todo custo evitar que um aparelho que tem a estranha capacidade de matar os operadores dos substitutos seja utilizado para exterminar quase toda a população mundial. Um exagero sem pé nem cabeça. Afinal, o vilão da história nada mais é do que o criador dos robôs (eu avisei que tinha spoilers). Ele está desgostoso com sua responsabilidade na criação de uma apatia coletiva. ”Oras bolas”, pensa o velho. “Não aguento mais ver essa galera deixando de viver suas vidas e fazendo isso através de uma máquina. Vou desligar as máquinas? Não, vou matar todo mundo!” A típica falta de sutileza Hollywoodiana que não faz o menor sentido. Eles tentam nos fazer acreditar que sua psicopatia é resultado do assassinato recente de seu filho. Tá bom…
Outra diferença entre a obra original e a adapatação é a relação entre o detetive e sua esposa. Nos quadrinhos, ela não passa de uma mulher que não consegue enfrentar o avanço da idade e o declínio natural de seu corpo. Afinal, os substitutos são lindos e não envelhecem. Se algo desagrada, não precisa passar pelo desconforto e perigo de uma cirurgia plástica. Leve seu robô a um centro de update e melhore o que quiser. No filme, para justificar o amor incondicional do detetive por sua esposa, resolveram limpar a barra dela. Para que ela não parecesse tão superficial, inventaram uma bela cicatriz, provocada por um acidente de carro. Nesse acidente o filho do casal morreu. Assim, ao invés de simples viciados em vida virtual, temos um casal amargurado por uma experiência traumática e um defeito físico real. É a fraqueza humana precisando de uma justificativa. Ainal, heróis precisam de situações radicais para abandonarem sua natureza nobre…
O personagem Profeta, que tem importância fundamental no desenrolar da trama nos quadrinhos, no filme não passa de um personagem desinteressante, mal explicado e irritante. Na tentativa de criarem uma ironia, os roteiristas apelaram para a fórmula mais manjada e revelaram, lá perto do final do filme, que o Profeta e seus dois seguranças também são robôs. Isso acontece dentro de um gueto onde o ódio aos substitutos chega à paranóia.
Existem vários outros detalhes que desabonam o filme. Meu conselho: não perca seu tempo. Se acha que a sinopse daria uma boa história, saiba que já deu e que você pode conferi-la em português, numa edição da Devir. Vá a uma livraria ou comic shop e curta. O filme? É quase um substituto… mas muito defeituoso.

Escrito por waltertierno 
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