Capa de Cira

Agosto 7, 2009

Tenho dois lay-outs para a capa de Cira e, sinceramente, não faço a menor ideia de qual usar. É para horas como essas que serve a boa e velha pesquisa de mercado. Por isso, seria de muita ajuda se os gatos pingados que acompanham este blog manifestassem sua opinião. Aqui estão as duas capas. Diga-me qual delas desperta mais sua curiosidade ou qual está mais bonita.

Capa 1:capa de cira

 

Capa 2:

capa de cira_1

Obrigado aos que responderem.


Arnaldo, o último motorista

Fevereiro 26, 2008

Acabou, travou.
Arnaldo estava radiante, naquele começo de tarde. Seu sorriso amarelo – quinze anos fumando – atravessava-lhe a cara, como um teclado de piano velho. Estava recebendo as chaves. As tão aguardadas chaves. Foi nesse instante que as cenas passaram diante de seus olhos. A percepção de que realizara seu sonho. Ou parte dele.
Arnaldo trabalhava, há dois anos, em uma grande empresa de telemarketing. Havia começado como operador e, degrau por degrau, paciente e eficientemente, alcançou uma promoção para o departamento de Recursos Humanos. Lá, como assistente de projetos, fazia de tudo. Desde encomendar e-mails à agência de propaganda fornecedora até a pesquisa e contratação de palestras motivacionais. Trabalhava com prazos apertados. Sempre na correria. Por isso, tinha certeza de que seu trabalho era importante.
Já estava terminando sua pós-graduação. MBA. Estava melhorando o currículo, almejando um cargo de gerência a médio prazo. Sua vida estava detalhadamente planejada. Seus objetivos, focados. Aprendera isso em um livro de auto-ajuda para jovens que queriam evoluir.
E evolução era o que Arnaldo conseguira, naquele começo de tarde. Um de seus objetivos alcançados. Comprara um carro.
Não era um carro zero km. Tinha um ano de uso. Mesmo assim, era uma beleza. Bancos de couro, vidros elétricos, ar condicionado, trava elétrica. Tudo perfeito. Sofia, sua namorada, estava ansiosa. Já ligara para seu celular vinte vezes. Com o entupimento da rede, apenas duas tentativas tiveram sucesso.
Arnaldo virou a chave na ignição.
Era um de seus momentos. Acreditava que muitos outros viriam. Todos aqueles momentos que demonstram a evolução da pessoa. O bom emprego, a companheira bonita e amorosa, a primeira prestação do apartamento, o primeiro carro… Tudo muito bem descritinho, tanto no livro que Arnaldo deixava na cabeceira de sua cama quanto em qualquer anúncio na tevê.
Os documentos estavam no porta-luvas. Tudo direitinho. O motor roncou. Não era daqueles motores populares, um-ponto-zero. Era um dois-ponto-quatro. Engatou a primeira marcha, tirou levemente o pé da embreagem e acelerou. Atravessou a calçada da frente da loja. Não passava de um corredor entre outros carros com os preços pintados de branco nos pára-brisas. Ocupou os últimos três metros de asfalto vago.
Acabou, travou.
Naquele instante, Arnaldo conquistou um objetivo que jamais planejara: entrou para a história. Arnaldo foi o último motorista a ocupar o último pedaço de São Paulo. Houve um outro, depois dele, que ocupou aquele corredorzinho na calçada, em frente à loja. Mas não era asfalto. Por isso, a honra de ser o último motorista coube a Arnaldo.
Como todos os seus colegas motoristas, depois de dois dias dormindo dentro do veículo, Arnaldo acabou percebendo que não sairia do lugar.
Quis reaver seu dinheiro. Voltou à loja. Teve de andar sobre os carros que estavam na calçada.
- Pois não, senhor? – atendeu a vendedora.
- Quero devolver o carro e pegar meu dinheiro.
- Algum problema com o carro?
- Claro. Não consigo sair daqui da frente da loja há dois dias!
- Mas essa imobilidade, por acaso, é provocada por algum defeito do carro?
- Como é? – Arnaldo coçava a cabeça. Não a lavava há dois dias.
- Eu quero saber se existe algum problema com o carro. – O tom de voz da vendedora não se alterava.
- Não… quero dizer… não sei. Não andei nada com ele…
A discussão tomou mais umas seis horas da vida de Arnaldo. Saiu da loja ainda mais emputecido e descabelado. E não conseguiu reaver seu dinheiro.
Foi para casa como todos os outros colegas motoristas: andando sobre os capôs dos carros parados.


Catálogo da fauna do transporte público paulista – 3

Janeiro 9, 2008

Preguiça Entreira (entrandum et empacandum) – Uma variação da Preguiça Porteira. Enquanto seus primos habitam principalmente os ônibus, a Preguiça Entreira é quase uma exclusividade dos metrôs. Costumam se camuflar como representantes menos incômodos da fauna do transporte público, mas são facilmente perceptíveis quando as portas abrem para a entrada da manada. É aquele animal que dá um passo para entrar pela porta, estaciona de forma a barrar a entrada dos demais usuários e assume uma expressão de completa estupidez, tentando decidir para onde ir, em seguida, sem nunca escolher a alternativa óbvia de ocupar os corredores, por mais vazios que estejam.

Pensamentos de Anardeus – 1

Janeiro 7, 2008

Anardeus odeia os grafiteiros que têm síndrome de Pokemon:

Só sabem pintar o próprio nome.


Anardeus

Janeiro 3, 2008

Anardeus acredita que o mundo ainda tem solução. Mas precisará de alguns ajustes:
Lista de Anardeus para os problemas do mundo:
1 – Reduzir a população mundial para um terço do número atual. Claro que ele prefere que a redução seja voluntária. Para isso, as pessoas deveriam pensar duas vezes antes de fazer um filho. Pensar duas vezes é o suficiente para que qualquer ser humano normal desista da idéia de se reproduzir.
2 – Retirar das ruas 90% da frota de carros. Anardeus não é um defensor do transporte público. Para ele, os meios de transporte recomendados são bicicleta e cavalos.
3 – Extinção das armas de fogo. Anardeus defende que todos devem portar armas brancas, igualando poderes. A equação é simples. Por exemplo: se você disser alguma besteira a alguém, esse alguém pode tirar um machado de dentro do paletó e rachar-lhe a cabeça. Mas ele não fará isso porque não sabe que arma você está portando embaixo da sua jaqueta, nem se você sabe manejá-la melhor do que ele maneja seu machado. Você sabe que ele tem alguma arma debaixo do paletó, mas não sabe qual nem como ele a maneja. Portanto, você não falará besteira, para não ter que descobrir, nem ele tirará o machado, porque ambos foram cordiais um com o outro. Paz na Terra.
(Sim, ele desconsiderou a estupidez inerente ao homem, que derruba todo esse tópico. Mas a verdade é que Anardeus adora armas brancas).
4 – Anardeus não dá a mínima para raízes de árvores que destroem calçadas. Para ele, calçadas foram feitas pra isso mesmo. Lugar de asfalto liso e bem-feito é na rua, de onde já terá saído 90% da frota de carros.


Catálogo da fauna do transporte público paulista – 1

Novembro 10, 2007

tartarugas-urbanas1 Tartaruga Corcunda (Tartarugus encostus)
Espécie muito difundida. Pode ser encontrada em todos os sistemas de transporte público de São Paulo, do metrô ao carrinho de mão. Embora existam inúmeras subespécies, são facilmente identificáveis pela corcunda volumosa que carregam, com a qual obstruem corredores e catracas.
Suas corcundas não possuem nenhum tipo de ligação nervosa, por isso, não sentem quando são tocadas ou, o mais comum, tocam outros seres. Um hábito bastante comum das tartarugas corcundas é o de apoiar sua corcova sobre outros animais da fauna do transporte público.
Possuem audição e senso prático altamente deficitários. Também são analfabetos funcionais. Esta é a razão por que sempre ignoram os avisos, escritos e sonoros, para que coloquem as malditas corcundas à frente do corpo ao ingressarem nos trens e ônibus.