Em um artigo publicado pela revista New Scientist, o casal Robert e Brenda Vale, autores do livro “Time to Eat the Dog? The Real Guide to Sustainable Living” (“Hora de comer cachorro? O verdadeiro guia da vida sustentável”, ainda não publicado no Brasil) alega ter realizado uma pesquisa inusitada. Apontam que para alimentar Medor, um cachorro de tamanho médio que come 164 quilos de carne e 95 quilos de cereais por ano, o impacto no meio ambiente corresponde a uma superfície de 0,84 hectares. Já um veículo 4×4 que percorre 10.000 quilômetros anuais, levando em conta a energia necessária para sua fabricação e a utilizada para seus deslocamentos, tem um impacto ecológico de 0,41 hectares, duas vezes menos que o do cãozinho.
A notícia ganhou projeção nacional ao ser veiculada pelo programa “Fantástico” e por vários sites de notícias. O que realmente impressiona não é o absurdo da afirmativa, mas a forma como ela foi aparentemente aceita pelos meios de comunicação sem o devido questionamento.
Se comparado o impacto ao meio ambiente usando como medida a área de plantação/criação necessária para alimentar um cão e a área usada para fabricar e movimentar um carro (mesmo um 4×4 beberrão de gasolina), é óbvio que o bicho vira vilão. Afinal, os pesquisadores consideraram que existem bois concebidos, criados e abatidos para fabricar exclusivamente ração (em vez do aproveitamento das partes do boi que não são consumidas pelos seres humanos). Em algum momento foi considerada a emissão de gases pelo veículo quando ele se locomove? Provavelmente… afinal, aquele cinza que se vê no céu de São Paulo só pode ser provocado pelos gases liberados pelos cães, gatos e hamsters, não é?
A afirmação ganhou ares de verdade na imprensa. Não passa de uma descarada bobagem, que se sustenta em dados questionáveis e tendenciosos. É vergonhosa a leviandade dos editores e jornalistas brasileiros e, por que não dizer, a falta de responsabilidade com aquilo que juraram defender quando receberam seus diplomas: a verdade.
Escrito por waltertierno
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