Não sei dizer em qual ano foi. Quarta série? Quinta? Não importa. Eu era criança e isso já faz um tempinho… Foi uma crônica. De Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto. Falava sobre a incapacidade das pessoas em admitir ignorância. Um orgulho besta. Na história, dois amigos resolvem sair por aí perguntando, em estabelecimentos de ramos diferentes, por variados produtos, sempre dizendo que são da marca Leônio Xanás. Sem querer passar por ignorantes, as pessoas que os atendem acabam inventando as mais esdrúxulas desculpas. Não são capazes de dizer que nunca ouviram falar do tal vinho Leônio Xanás ou da marca de lenços de mesmo nome. O básico da crônica ficou em minha memória, e sempre que vejo alguma situação de “ignorância não assumida”, o nome Leônio Xanás me vem à mente (a crônica está no final deste meu post). Nesta segunda, dia 10 de maio, lembrei-me de Xanás quando vi, no programa CQC, da Band, uma matéria em que Rafael Cortez transformou um simplório estagiário em uma celebridade na noite paulistana. Foi a matéria mais genial que já vi no programa. Em uma festinha apinhada de colunistas sociais, Cortez não só utilizou sua câmera e microfone para introduzir o estagiário na festa, passando pelos seguranças, como fez jornalistas e paparazzi de plantão cercarem o garoto. A estratégia? Cortez espalhou o boato de que o moço seria o pivô da separação de um casal de celebridades, dessas que eu não faço a menor questão de conhecer. Numa segunda balada, o efeito Xanás tornou-se mais evidente. Rafael Cortez apresentou seu estagiário a um bando de cantorzinhos fáceis: Malu Magalhães, Pitty e um emo cujo nome também não faço questão de saber, dizendo-lhes que ele era um novo músico (porém dando a entender que já tinha alguma notoriedade). As pérolas: “Conheço o trabalho dele, sim. De repente, a gente até poderia fazer alguma coisa junto”. “Já te vi, sim, por aqui.” Pitty, Malu Magalhães, a jornalista Joyce Pascowicth, o emo cujo nome não faço questão de saber: vocês precisam ler a crônica de Leônio Xanás! E fãs, não fiquem tão chateados ao constatar a “autenticidade” de seus ídolos. A culpa é só sua, por não aceitar que essa galera é igualzinha a vocês: humanos.
A crônica:
“Por fora” de Xanás
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)
Todo dito popular funciona e ficaria o dito pelo não dito, se os ditos ditos não funcionassem, dito o que, acrescento que há um dito que não funciona, ou melhor dito, é um dito que funciona em parte, uma vez que no setor da ignorância, o dito falha, talvez para confirmar outro velho dito: o do não-há-regra-sem-exceção.
Digo melhor: o dito mal-de-muitos-consolo-é, encerra muita verdade mas falha quando notamos que ignorância é o que não falta pela aí e, no entanto, ninguém gosta de confessar sua ignorância. Logo, pelo menos aí, o dito dito falha. Tenho experiência pessoal quanto à má vontade do próximo para com a própria ignorância, má vontade esta, confirmada diversas vezes em poucos minutos, graças a uma historinha vivida ao lado do escritor Álvaro Moreira, num dia em que fomos almoçar juntos, na cidade. Já não me lembro qual o motivo do almoço.
Lembro-me, isto sim, que íamos caminhando, quando Alvinho disse, em voz alta:
— Leônio Xanás.
— O quê? — perguntei, e Alvinho explicou que Leônio Xanás era o nome do pintor que estava pintando seu apartamento. Até me mostrou um cartãozinho, escrito “Leônio Xanás — Pinturas em Geral — Peça Orçamento”.
— Hoje acordei com o nome dele na cabeça. A toda hora digo Leônio Xanás — contava o escritor. — Ainda agorinha, ao entrar no lotação, disse alto “Leônio Xanás” e levei um susto quando o motorista respondeu: “Passa perto”. Ele pensou que eu estava perguntando por determinada rua e foi logo dizendo que passa perto, sem ao menos saber que rua era.
Foi aí que nos nasceu a vontade de experimentar a sinceridade do próximo e nos nasceu a certeza de que ninguém gosta de confessar-se ignorante mesmo em relação às coisas mais corriqueiras. Entramos numa farmácia para comprar Alka-Seltzer (pretendíamos tomar vinho no almoço) e Alvinho experimentou de novo, perguntando ao farmacêutico:
— Tem Leônio Xanás?
— Estamos em falta — foi a resposta.
Saímos da farmácia e fomos ao prédio onde tem escritório o editor do Alvinho. No elevador, nova experiência. Desta vez quem perguntou fui eu, dirigindo-me ao cabineiro do elevador:
— Em que andar é o consultório do Dr. Leônio Xanás?
— Ele é médico de quê?
— Das vias urinárias , apressou-se a mentir o amigo, ante a minha titubeada.
_ Então é no sexto andar , garantiu o cara do elevador sem o menor remorso.
E se não tivéssemos saltado no quarto andar por conta própria, teria nos deixado no sexto a procurar um consultório que não existe. E assim foi a coisa. Ninguém foi capaz de dizer que não conhecia nenhum Leônio Xanás ou que não sabia o que era Leônio Xanás. Nem mesmo a gerente de uma loja de roupas, que geralmente são senhoras de comprovada gentileza. Entramos num elegante magazine do centro da cidade para comprar um lenço de seda para presente. Vimos vários, todos bacanérrimos, mas para continuar a pesquisa, indagamos da vendedora:
— Não tem nenhum da marca Leônio Xanás?
A mocinha pediu que esperássemos um momento, foi até lá dentro e voltou com a prestativa senhora gerente. Esta sorriu e quis saber qual era mesmo a marca:
— Leônio Xanás — repeti, com esta impressionante cara-de-pau que Deus me deu.
Madame voltou a sorrir e respondeu:
— Tínhamos, sim, senhor. Mas acabou. Estamos esperando nova remessa.
Foi uma pena não ter. Compramos de outra marca qualquer e fomos almoçar.
Foi um almoço simpático com o velho amigo. Lembro-me que, na hora do vinho, quando o garçom trouxe a carta, Alvinho deu uma olhadela e disse, em tom resoluto:
— Queremos uma garrafa de Leônio Xanás tinto.
O garçom fez uma mesura:
— O senhor vai me perdoar, doutor. Mas eu não aconselho esse vinho.
Devia ser uma questão de safra, daí aconselhar outro:
— O Ferreirinha não serve?
Servia.
É irmãos, mal de muitos consolo é, mas ignorante que existe às pampas, ninguém quer ser.
Escrito por waltertierno 










