Ignorância legítima é para poucos

maio 11, 2010

Não sei dizer em qual ano foi. Quarta série? Quinta? Não importa. Eu era criança e isso já faz um tempinho… Foi uma crônica. De Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto. Falava sobre a incapacidade das pessoas em admitir ignorância. Um orgulho besta. Na história, dois amigos resolvem sair por aí perguntando, em estabelecimentos de ramos diferentes, por variados produtos, sempre dizendo que são da marca Leônio Xanás. Sem querer passar por ignorantes, as pessoas que os atendem acabam inventando as mais esdrúxulas desculpas. Não são capazes de dizer que nunca ouviram falar do tal vinho Leônio Xanás ou da marca de lenços de mesmo nome. O básico da crônica ficou em minha memória, e sempre que vejo alguma situação de “ignorância não assumida”, o nome Leônio Xanás me vem à mente (a crônica está no final deste meu post). Nesta segunda, dia 10 de maio, lembrei-me de Xanás quando vi, no programa CQC, da Band, uma matéria em que Rafael Cortez transformou um simplório estagiário em uma celebridade na noite paulistana. Foi a matéria mais genial que já vi no programa. Em uma festinha apinhada de colunistas sociais, Cortez não só utilizou sua câmera e microfone para introduzir o estagiário na festa, passando pelos seguranças, como fez jornalistas e paparazzi de plantão cercarem o garoto. A estratégia? Cortez espalhou o boato de que o moço seria o pivô da separação de um casal de celebridades, dessas que eu não faço a menor questão de conhecer. Numa segunda balada, o efeito Xanás tornou-se mais evidente. Rafael Cortez apresentou seu estagiário a um bando de cantorzinhos fáceis: Malu Magalhães, Pitty e um emo cujo nome também não faço questão de saber, dizendo-lhes que ele era um novo músico (porém dando a entender que já tinha alguma notoriedade). As pérolas: “Conheço o trabalho dele, sim. De repente, a gente até poderia fazer alguma coisa junto”. “Já te vi, sim, por aqui.” Pitty, Malu Magalhães, a jornalista Joyce Pascowicth, o emo cujo nome não faço questão de saber: vocês precisam ler a crônica de Leônio Xanás! E fãs, não fiquem tão chateados ao constatar a “autenticidade” de seus ídolos. A culpa é só sua, por não aceitar que essa galera é igualzinha a vocês: humanos.

A crônica:

“Por fora” de Xanás
Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

 Todo dito popular funciona e ficaria o dito pelo não dito, se os ditos ditos não funcionassem, dito o que, acrescento que há um dito que não funciona, ou melhor dito, é um dito que funciona em parte, uma vez que no setor da ignorância, o dito falha, talvez para confirmar outro velho dito: o do não-há-regra-sem-exceção.
Digo melhor: o dito mal-de-muitos-consolo-é, encerra muita verdade mas falha quando notamos que ignorância é o que não falta pela aí e, no entanto, ninguém gosta de confessar sua ignorância. Logo, pelo menos aí, o dito dito falha. Tenho experiência pessoal quanto à má vontade do próximo para com a própria ignorância, má vontade esta, confirmada diversas vezes em poucos minutos, graças a uma historinha vivida ao lado do escritor Álvaro Moreira, num dia em que fomos almoçar juntos, na cidade. Já não me lembro qual o motivo do almoço.
Lembro-me, isto sim, que íamos caminhando, quando Alvinho disse, em voz alta:
— Leônio Xanás.
— O quê? — perguntei, e Alvinho explicou que Leônio Xanás era o nome do pintor que estava pintando seu apartamento. Até me mostrou um cartãozinho, escrito “Leônio Xanás — Pinturas em Geral — Peça Orçamento”.
— Hoje acordei com o nome dele na cabeça. A toda hora digo Leônio Xanás — contava o escritor. — Ainda agorinha, ao entrar no lotação, disse alto “Leônio Xanás” e levei um susto quando o motorista respondeu: “Passa perto”. Ele pensou que eu estava perguntando por determinada rua e foi logo dizendo que passa perto, sem ao menos saber que rua era.
Foi aí que nos nasceu a vontade de experimentar a sinceridade do próximo e nos nasceu a certeza de que ninguém gosta de confessar-se ignorante mesmo em relação às coisas mais corriqueiras. Entramos numa farmácia para comprar Alka-Seltzer (pretendíamos tomar vinho no almoço) e Alvinho experimentou de novo, perguntando ao farmacêutico:
— Tem Leônio Xanás?
— Estamos em falta — foi a resposta.
Saímos da farmácia e fomos ao prédio onde tem escritório o editor do Alvinho. No elevador, nova experiência. Desta vez quem perguntou fui eu, dirigindo-me ao cabineiro do elevador:
— Em que andar é o consultório do Dr. Leônio Xanás?
— Ele é médico de quê?
— Das vias urinárias , apressou-se a mentir o amigo, ante a minha titubeada.
_ Então é no sexto andar , garantiu o cara do elevador sem o menor remorso.
E se não tivéssemos saltado no quarto andar por conta própria, teria nos deixado no sexto a procurar um consultório que não existe. E assim foi a coisa. Ninguém foi capaz de dizer que não conhecia nenhum Leônio Xanás ou que não sabia o que era Leônio Xanás. Nem mesmo a gerente de uma loja de roupas, que geralmente são senhoras de comprovada gentileza. Entramos num elegante magazine do centro da cidade para comprar um lenço de seda para presente. Vimos vários, todos bacanérrimos, mas para continuar a pesquisa, indagamos da vendedora:
— Não tem nenhum da marca Leônio Xanás?
A mocinha pediu que esperássemos um momento, foi até lá dentro e voltou com a prestativa senhora gerente. Esta sorriu e quis saber qual era mesmo a marca:
— Leônio Xanás — repeti, com esta impressionante cara-de-pau que Deus me deu.
Madame voltou a sorrir e respondeu:
— Tínhamos, sim, senhor. Mas acabou. Estamos esperando nova remessa.
Foi uma pena não ter. Compramos de outra marca qualquer e fomos almoçar.
Foi um almoço simpático com o velho amigo. Lembro-me que, na hora do vinho, quando o garçom trouxe a carta, Alvinho deu uma olhadela e disse, em tom resoluto:
— Queremos uma garrafa de Leônio Xanás tinto.
O garçom fez uma mesura:
— O senhor vai me perdoar, doutor. Mas eu não aconselho esse vinho.
Devia ser uma questão de safra, daí aconselhar outro:
— O Ferreirinha não serve?
Servia.
É irmãos, mal de muitos consolo é, mas ignorante que existe às pampas, ninguém quer ser.


Fobia de quê?

abril 6, 2010

Eu gosto do seriado “24 Horas”. É uma galhofa divertidíssima. Acontecem coisas em 24 horas que, mesmo na ficção, deveriam levar 24 dias. A cada três horas, Jack Bauer salva milhões de pessoas pelo menos uma vez. Durante as tardes de domingo, costumo colocar um DVD para assistir. Vejo uns três ou quatro episódios por vez (atualmente, estou vendo a quarta temporada).

Minha esposa odeia. No último domingo (4 de abril), ela veio até a sala e exigiu que, pelo menos por uma hora, eu sintonizasse a TV em algum programa dominical. Foi inevitável que acabassemos no Faustão, já que o vencedor do BBB10 estava lá no palco. Minha esposa gosta de BBB.

Não demorou muito para eu ouvir algumas pérolas. A que mais chamou minha atenção foi quando disseram que o dito-cujo era homofóbico. Ele negou e disse que estava sofrendo pela heterofobia de alguns dos outros participantes do programa. E foi aplaudido.

Hein?!

Heterofobia?

Se você anda repetindo por ai as bobagens que esse camarada fala ou as aplaude efusivamente, deixe-me esclarecer algumas coisas.

Em primeiro lugar, não existe esse negócio de heterofobia. Orgulho hétero então…

O motivo é simples. Se você, como eu, é um homem heterossexual, simplesmente faz parte do status quo. Estamos em vantagem. Não precisamos fazer parte de nenhum movimento de orgulho heterossexual. Somos a “situação”.

Por acaso, somos agredidos física ou verbalmente na rua por sermos héteros? Nossos pais nos expulsaram de casa quando assumimos nossa heterossexualidade? Algum patrão nos demitiu usando eufemismos e desculpas furadas, quando descobriu que somos héteros? Os neonazistas nos perseguem para descontar suas frustrações por sermos héteros?

Se, além de hétero, você for branco, você simplesmente tem todas as vantagens e prioridades.

E coloque de vez uma coisa nessa sua cabeça homofóbica: a parada do orgulho gay não existe para angariar mais adeptos. Eles não querem transformar o mundo em uma orgia cor-de-rosa. Eles apenas pedem o mais essencial e justo, que é RESPEITO!

Pense nisso antes de alavancar o tal Dourado ao patamar de herói nacional. O cara, além de homofóbico, é ignorante. Ou você também vai aplaudir quando ele disser, no auge de seus quarenta anos de idade, que heterossexuais não contraem AIDS? Porque, pelo que eu sei, não faz muito tempo que ele lançou essa pérola em rede nacional.


Eu vi e lamentei

março 23, 2010

Lamentei muito ter visto a matéria que o CQC realizou sobre a TV doada à Secretaria de Educação de Barueri.

A TV tinha um rastreador e um alarme instalados e, graças ao equipamento, foi detectado que o aparelho não ficou na escola a qual deveria ser encaminhado. Ao contrário, passou três meses sendo utilizado na casa de uma funcionária da própria escola, com a desculpa para lá de esfarrapada de que estava sendo “sintonizada”.

Não lamentei pela qualidade da matéria. Lamentei por ter que presenciar o descaso, a cara-de-pau, o desrespeito daqueles que deveriam zelar pelo bem público. Mas essa nem foi a pior parte, na minha humilde opinião.

Lamentei muito mais por ver, na segunda parte da matéria, a reação ridícula e descabida do prefeito de Barueri, senhor Rubens Furlan (PMDB). Ele aceitou receber o pessoal do CQC depois de voltar atrás no pedido que havia feito na justiça para impedir a matéria de ir ao ar. Pedido este que havia sido cegamente atendido.

A tal reação não é cabível a um administrador público. Não preciso ser especialista para saber disso. Ninguém precisa.

Espero que, no futuro, a população de Barueri pense melhor antes de votar neste senhor. Ai está a oportunidade para eles contribuirem com o saneamento que a política brasileira tanto necessita.


Luto

março 12, 2010

Tristeza pela morte de um dos grandes cartunistas brasileiros: Glauco


Cães e poluição

dezembro 22, 2009

Em um artigo publicado pela revista New Scientist, o casal Robert e Brenda Vale, autores do livro “Time to Eat the Dog? The Real Guide to Sustainable Living” (“Hora de comer cachorro? O verdadeiro guia da vida sustentável”, ainda não publicado no Brasil) alega ter realizado uma pesquisa inusitada. Apontam que para alimentar Medor, um cachorro de tamanho médio que come 164 quilos de carne e 95 quilos de cereais por ano, o impacto no meio ambiente corresponde a uma superfície de 0,84 hectares. Já um veículo 4×4 que percorre 10.000 quilômetros anuais, levando em conta a energia necessária para sua fabricação e a utilizada para seus deslocamentos, tem um impacto ecológico de 0,41 hectares, duas vezes menos que o do cãozinho.

A notícia ganhou projeção nacional ao ser veiculada pelo programa “Fantástico” e por vários sites de notícias. O que realmente impressiona não é o absurdo da afirmativa, mas a forma como ela foi aparentemente aceita pelos meios de comunicação sem o devido questionamento.

Se comparado o impacto ao meio ambiente usando como medida a área de plantação/criação necessária para alimentar um cão e a área usada para fabricar e movimentar um carro (mesmo um 4×4 beberrão de gasolina), é óbvio que o bicho vira vilão. Afinal, os pesquisadores consideraram que existem bois concebidos, criados e abatidos para fabricar exclusivamente ração (em vez do aproveitamento das partes do boi que não são consumidas pelos seres humanos). Em algum momento foi considerada a emissão de gases pelo veículo quando ele se locomove? Provavelmente… afinal, aquele cinza que se vê no céu de São Paulo só pode ser provocado pelos gases liberados pelos cães, gatos e hamsters, não é?

A afirmação ganhou ares de verdade na imprensa. Não passa de uma descarada bobagem, que se sustenta em dados questionáveis e tendenciosos. É vergonhosa a leviandade dos editores e jornalistas brasileiros e, por que não dizer, a falta de responsabilidade com aquilo que juraram defender quando receberam seus diplomas: a verdade.


Guerreiros?

dezembro 8, 2009

O novo comercial da Brahma:

Cenas da final do campeonato brasileiro:


O que Serra tem a dizer sobre a ampliação da Marginal?

setembro 13, 2009

serra e a marginal


Desenhos de férias 3

agosto 17, 2009

ministra Dilma Rousseff


Desenhos de férias – 2

agosto 15, 2009

Quem será?

lula batraquio


Trindade improvável em Brasília

agosto 8, 2009

sarney_lula_collor


Nova pastora = Carol Kaká

julho 26, 2009

nova pastora


Jornalistas formados

junho 24, 2009

O Tribunal Superior Federal decidiu que o diploma de jornalismo não é mais obrigatório para o exercício da função. O argumento mais utilizado foi o da liberdade de expressão.

Foi um festival tragicômico.

A comunicação de massa é uma arma. Isso não é novidade, nem segredo. Derruba governos, elege ditadores, revoluciona, transforma, aprova e reprova. Se você não sabia disso, precisa prestar um pouco mais de atenção à história da humanidade.

Ninguém está acorrentando a liberdade de expressão ao regulamentar uma profissão que tem responsabilidade social. Sem desmerecer os cozinheiros, mas é mais pertinente comparar os jornalistas a médicos e militares, que são cobrados em suas posturas, em sua ética e seu compromisso com a sociedade e com os seres humanos.

Se o Tribunal Superior está tão preocupado em garantir a liberdade de expressão dos brasileiros, que tal liberar a concessão de emissoras de rádio e televisão?


Só restar perguntar:

maio 31, 2009

Que porra é essa?


Lulla e a poupança

maio 14, 2009

lulla


Cenas de novela

abril 29, 2009

gato-da-novela21


Nem gente, nem bicho

abril 1, 2009

Foi divulgado, nesta terça, um vídeo gravado por celular em que um guarda municipal de Ribeirão Pires (SP) agride um morador de rua. O homem, que tem problemas mentais e passa o dia andando pela cidade, parou no posto e pediu um copo de água. O guarda, depois de humilhar o andarilho verbalmente, agrediu-o com uma descarga de extintor de incêndio.

O vídeo foi gravado por um dos guardas e estava sendo assistido pelos moradores da cidade. Um deles não gostou do que viu e fez a denúncia. Ele também é guarda municipal.

Estes são os fatos. Cabem agora, algumas ponderações…

1- O guarda responsável pela agressão diz que tem uma relação de amizade com o morador de rua e que a descarga foi uma “brincadeira entre amigos”. Vamos colocar a situação em sua devida perspectiva: Não era um grupo de amigos sacaneando um amigo que pode achar graça na brincadeira e até, quem sabe, revidar e tudo acabar em pizza. Estamos falando de um homem com problemas mentais, que pode não ter plena consciência do que está acontecendo e não tem como se defender e um agressor que deveria, em teoria, cuidar da segurança e bem-estar da população e da ordem pública.

Será vergonhoso se o citado guarda mantiver o emprego.

2- A declaração do denunciante usa um argumento que coincide com o raciocínio de vários outros entrevistados: “Nós somos pagos para tratar a sociedade com dignidade e não para agir daquela forma. Porque se trata de um ser humano e não de um cachorro, um bicho”. Ok, ninguém discute que o que aconteceu é lamentável. Mas cabe aqui uma pergunta: Se fosse um bicho, um cachorro, por exemplo… tudo bem? Acredito que não.

 

 


A Hora do Planeta

março 29, 2009

A vida na Terra, segundo a maioria dos cientistas, só se extinguirá completamente no ocaso de nosso sol. Acontecimentos muito mais radicais do que o atual aquecimento global que estamos provocando não foram capazes de extinguir a vida do planeta.

O efeito estufa pode – e provavelmente irá – acabar com várias espécies. A humana incluída. Nossa luta para diminuir causas e efeitos do aquecimento global é, basicamente, uma luta pela humanidade. A Terra, depois de sumirmos, se recuperará. Assim como a vida, que insistirá em continuar, em novas formas.

Por isso, soa um pouco arrogante quando campanhas de conscientização dos efeitos do aquecimento global são batizadas como “Hora do Planeta”.

Mas se o nome da manifestação fosse o principal problema…

A Hora do Planeta consistiu em apagarmos as luzes entre 20h30min e 21h30min do dia 28 de março. Um gesto simbólico para um problema que é urgente, evidente e bem maior do que dizem: Estamos esgotando os recursos necessários para nossa sobrevivência, extinguindo espécies com nossa sujeira, nos reproduzindo e nos espalhando como uma praga, num mundo que não aguenta esse ritmo de exploração e que, como resposta, revogará sua hospitalidade.

Pergunto-me se já não passou o tempo dos gestos simbólicos. A população precisa ser conscientizada? Sem dúvida que sim! Gestos simbólicos fazem o trabalho? Sem dúvida que não!

Eles servem a dois propósitos:

1- Aliviar a consciência das pessoas, que pensam que apagar a luz de suas casas durante uma hora ou deixar seu carro em casa num único dia entre os 365 do ano as redime dos sacos plásticos que jogam nos bueiros (leia-se rios, oceanos e gargantas de tartarugas), dos passeios motorizados para comprar um simples pãozinho, do óleo de cozinha jogado pelo ralo etc.

2- Banalizar uma discussão séria, que merece apoio, medidas concretas, pressão sobre os governantes e atitudes pessoais.

Quando a propaganda visa conscientização, a delicadeza não funciona. Você não vai convencer a humanidade a mudar seu apetite destrutivo enquanto não a fizer encarar o que significa um mundo com o clima descontrolado, com os recursos naturais extintos, com a geografia alterada por culpa do ser humano. E esse trabalho é árduo e inglório, já que, convenhamos, boa parte desse primata supostamente racional só entende o perigo quando já está no meio da danação.

A luta defendida pela WWF e a “Hora do Planeta” é imprescindível. O método é pobrezinho…

 

Nesses momentos, sempre me vem à cabeça aquele sinal de “sou da paz” com as mãos. Muitas daquelas mãos que você vê na TV vão segurar um baseado ou ajeitar uma carreirinha logo depois de dar dinheiro a um traficante que comprará uma arma para organizar um assalto no qual mais alguém pode morrer.

Você não consegue imaginar uma multidão de pessoas que vão apagar as luzes de suas casas durante uma hora para se sentirem redimidas naquele momento em que estiverem enchendo o tanque de seus SUVs? Monstros poluidores que carregam uma única e espaçosa pessoa.

 

Engraçado como o ponto principal de todo nosso problema é um tabu: SOMOS MUITOS!

Mas as igrejas não aceitam métodos anticoncepcionais. A seus olhos, a AIDS não existe. A gravidez na adolescência não existe.


Um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

fevereiro 2, 2009

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


A liberdade que o carro te dá

janeiro 29, 2009

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Errar, nunca!

outubro 20, 2008

Por que a admissão do erro é um tabu? De onde veio essa idéia de que errar é uma fraqueza? Eu sempre ouvi: “Errar é humano.” Até onde sei, isso ainda não mudou. Não é profético dizer que não vai mudar. Pelo menos, não tão cedo…

E essa não admissão não é de hoje.

Lembram-se dos iludidos que apoiaram a campanha de Collor? Dos poucos artistas e celebridades que deram a cara na campanha collorida, a única que admitiu o erro e pediu desculpas foi a cantora Simone (pelo menos, foi a única que eu vi). Uns poucos disseram que foram enganados. E, pasmem, tem gente que, até hoje, busca alguma desculpa para o desgoverno de Collor.

Betinho, o sociólogo, irmão de Henfil, foi citado no livro-caixa do bicheiro Castor de Andrade. Pediu desculpas. Mas lembro bem que ele nunca admitiu que aceitar dinheiro do jogo do bicho tenha sido um erro. No máximo, um mal necessário.

Recentemente, Marta Suplicy deixou-se crucificar com uma campanha equivocada sobre o oponente Kassab. Sua equipe cutucou uma ferida (você sabe qual) sobre Kassab. Ele vestiu a carapuça e a imprensa caiu matando sobre a ex-ministra que voa relaxada e gozando. Tivesse ela pedido desculpas e admitido o erro, teria alguma esperança de reverter a situação. Ao contrário, insiste em dizer que não houve erro nenhum. Pior. Diz que não sabia de nada e que a decisão cabia aos marqueteiros. É assim que ela pretende governar a maior cidade do Hemisfério Sul? Sem controle? Sem saber? Não entendam errado. Não sou defensor da candidatura de Kassab. Ele apenas não cometeu, ainda, um erro tão grande. Se tivesse cometido, tenho certeza de que também não o admitiria. Não esqueçamos. Admitir erro é tabu.

Esta semana, uma das maiores lambanças da história policial brasileira teve um desfecho trágico em Santo André. Uma adolescente morreu e outra foi ferida. A vida dos moradores da região foi atormentada por quase uma semana. Prejuízos e traumas. Na entrevista coletiva, o comandante da operação insistiu em dizer que não cometeu nenhum erro. É tão difícil, aterrador, dilacerante, humilhante e incompreensível simplesmente dizer: “errei”? É uma alternativa tão melhor dizer que mandaria o próprio filho para a mira de um desequilibrado?


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