Dezembro 22, 2009
Em um artigo publicado pela revista New Scientist, o casal Robert e Brenda Vale, autores do livro “Time to Eat the Dog? The Real Guide to Sustainable Living” (“Hora de comer cachorro? O verdadeiro guia da vida sustentável”, ainda não publicado no Brasil) alega ter realizado uma pesquisa inusitada. Apontam que para alimentar Medor, um cachorro de tamanho médio que come 164 quilos de carne e 95 quilos de cereais por ano, o impacto no meio ambiente corresponde a uma superfície de 0,84 hectares. Já um veículo 4×4 que percorre 10.000 quilômetros anuais, levando em conta a energia necessária para sua fabricação e a utilizada para seus deslocamentos, tem um impacto ecológico de 0,41 hectares, duas vezes menos que o do cãozinho.
A notícia ganhou projeção nacional ao ser veiculada pelo programa “Fantástico” e por vários sites de notícias. O que realmente impressiona não é o absurdo da afirmativa, mas a forma como ela foi aparentemente aceita pelos meios de comunicação sem o devido questionamento.
Se comparado o impacto ao meio ambiente usando como medida a área de plantação/criação necessária para alimentar um cão e a área usada para fabricar e movimentar um carro (mesmo um 4×4 beberrão de gasolina), é óbvio que o bicho vira vilão. Afinal, os pesquisadores consideraram que existem bois concebidos, criados e abatidos para fabricar exclusivamente ração (em vez do aproveitamento das partes do boi que não são consumidas pelos seres humanos). Em algum momento foi considerada a emissão de gases pelo veículo quando ele se locomove? Provavelmente… afinal, aquele cinza que se vê no céu de São Paulo só pode ser provocado pelos gases liberados pelos cães, gatos e hamsters, não é?
A afirmação ganhou ares de verdade na imprensa. Não passa de uma descarada bobagem, que se sustenta em dados questionáveis e tendenciosos. É vergonhosa a leviandade dos editores e jornalistas brasileiros e, por que não dizer, a falta de responsabilidade com aquilo que juraram defender quando receberam seus diplomas: a verdade.
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Setembro 13, 2009
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Escrito por waltertierno
Agosto 8, 2009
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Escrito por waltertierno
Junho 24, 2009
O Tribunal Superior Federal decidiu que o diploma de jornalismo não é mais obrigatório para o exercício da função. O argumento mais utilizado foi o da liberdade de expressão.
Foi um festival tragicômico.
A comunicação de massa é uma arma. Isso não é novidade, nem segredo. Derruba governos, elege ditadores, revoluciona, transforma, aprova e reprova. Se você não sabia disso, precisa prestar um pouco mais de atenção à história da humanidade.
Ninguém está acorrentando a liberdade de expressão ao regulamentar uma profissão que tem responsabilidade social. Sem desmerecer os cozinheiros, mas é mais pertinente comparar os jornalistas a médicos e militares, que são cobrados em suas posturas, em sua ética e seu compromisso com a sociedade e com os seres humanos.
Se o Tribunal Superior está tão preocupado em garantir a liberdade de expressão dos brasileiros, que tal liberar a concessão de emissoras de rádio e televisão?
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Abril 1, 2009
Foi divulgado, nesta terça, um vídeo gravado por celular em que um guarda municipal de Ribeirão Pires (SP) agride um morador de rua. O homem, que tem problemas mentais e passa o dia andando pela cidade, parou no posto e pediu um copo de água. O guarda, depois de humilhar o andarilho verbalmente, agrediu-o com uma descarga de extintor de incêndio.
O vídeo foi gravado por um dos guardas e estava sendo assistido pelos moradores da cidade. Um deles não gostou do que viu e fez a denúncia. Ele também é guarda municipal.
Estes são os fatos. Cabem agora, algumas ponderações…
1- O guarda responsável pela agressão diz que tem uma relação de amizade com o morador de rua e que a descarga foi uma “brincadeira entre amigos”. Vamos colocar a situação em sua devida perspectiva: Não era um grupo de amigos sacaneando um amigo que pode achar graça na brincadeira e até, quem sabe, revidar e tudo acabar em pizza. Estamos falando de um homem com problemas mentais, que pode não ter plena consciência do que está acontecendo e não tem como se defender e um agressor que deveria, em teoria, cuidar da segurança e bem-estar da população e da ordem pública.
Será vergonhoso se o citado guarda mantiver o emprego.
2- A declaração do denunciante usa um argumento que coincide com o raciocínio de vários outros entrevistados: “Nós somos pagos para tratar a sociedade com dignidade e não para agir daquela forma. Porque se trata de um ser humano e não de um cachorro, um bicho”. Ok, ninguém discute que o que aconteceu é lamentável. Mas cabe aqui uma pergunta: Se fosse um bicho, um cachorro, por exemplo… tudo bem? Acredito que não.
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Março 29, 2009
A vida na Terra, segundo a maioria dos cientistas, só se extinguirá completamente no ocaso de nosso sol. Acontecimentos muito mais radicais do que o atual aquecimento global que estamos provocando não foram capazes de extinguir a vida do planeta.
O efeito estufa pode – e provavelmente irá – acabar com várias espécies. A humana incluída. Nossa luta para diminuir causas e efeitos do aquecimento global é, basicamente, uma luta pela humanidade. A Terra, depois de sumirmos, se recuperará. Assim como a vida, que insistirá em continuar, em novas formas.
Por isso, soa um pouco arrogante quando campanhas de conscientização dos efeitos do aquecimento global são batizadas como “Hora do Planeta”.
Mas se o nome da manifestação fosse o principal problema…
A Hora do Planeta consistiu em apagarmos as luzes entre 20h30min e 21h30min do dia 28 de março. Um gesto simbólico para um problema que é urgente, evidente e bem maior do que dizem: Estamos esgotando os recursos necessários para nossa sobrevivência, extinguindo espécies com nossa sujeira, nos reproduzindo e nos espalhando como uma praga, num mundo que não aguenta esse ritmo de exploração e que, como resposta, revogará sua hospitalidade.
Pergunto-me se já não passou o tempo dos gestos simbólicos. A população precisa ser conscientizada? Sem dúvida que sim! Gestos simbólicos fazem o trabalho? Sem dúvida que não!
Eles servem a dois propósitos:
1- Aliviar a consciência das pessoas, que pensam que apagar a luz de suas casas durante uma hora ou deixar seu carro em casa num único dia entre os 365 do ano as redime dos sacos plásticos que jogam nos bueiros (leia-se rios, oceanos e gargantas de tartarugas), dos passeios motorizados para comprar um simples pãozinho, do óleo de cozinha jogado pelo ralo etc.
2- Banalizar uma discussão séria, que merece apoio, medidas concretas, pressão sobre os governantes e atitudes pessoais.
Quando a propaganda visa conscientização, a delicadeza não funciona. Você não vai convencer a humanidade a mudar seu apetite destrutivo enquanto não a fizer encarar o que significa um mundo com o clima descontrolado, com os recursos naturais extintos, com a geografia alterada por culpa do ser humano. E esse trabalho é árduo e inglório, já que, convenhamos, boa parte desse primata supostamente racional só entende o perigo quando já está no meio da danação.
A luta defendida pela WWF e a “Hora do Planeta” é imprescindível. O método é pobrezinho…
Nesses momentos, sempre me vem à cabeça aquele sinal de “sou da paz” com as mãos. Muitas daquelas mãos que você vê na TV vão segurar um baseado ou ajeitar uma carreirinha logo depois de dar dinheiro a um traficante que comprará uma arma para organizar um assalto no qual mais alguém pode morrer.
Você não consegue imaginar uma multidão de pessoas que vão apagar as luzes de suas casas durante uma hora para se sentirem redimidas naquele momento em que estiverem enchendo o tanque de seus SUVs? Monstros poluidores que carregam uma única e espaçosa pessoa.
Engraçado como o ponto principal de todo nosso problema é um tabu: SOMOS MUITOS!
Mas as igrejas não aceitam métodos anticoncepcionais. A seus olhos, a AIDS não existe. A gravidez na adolescência não existe.
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Fevereiro 2, 2009
Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
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Janeiro 29, 2009
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Outubro 20, 2008
Por que a admissão do erro é um tabu? De onde veio essa idéia de que errar é uma fraqueza? Eu sempre ouvi: “Errar é humano.” Até onde sei, isso ainda não mudou. Não é profético dizer que não vai mudar. Pelo menos, não tão cedo…
E essa não admissão não é de hoje.
Lembram-se dos iludidos que apoiaram a campanha de Collor? Dos poucos artistas e celebridades que deram a cara na campanha collorida, a única que admitiu o erro e pediu desculpas foi a cantora Simone (pelo menos, foi a única que eu vi). Uns poucos disseram que foram enganados. E, pasmem, tem gente que, até hoje, busca alguma desculpa para o desgoverno de Collor.
Betinho, o sociólogo, irmão de Henfil, foi citado no livro-caixa do bicheiro Castor de Andrade. Pediu desculpas. Mas lembro bem que ele nunca admitiu que aceitar dinheiro do jogo do bicho tenha sido um erro. No máximo, um mal necessário.
Recentemente, Marta Suplicy deixou-se crucificar com uma campanha equivocada sobre o oponente Kassab. Sua equipe cutucou uma ferida (você sabe qual) sobre Kassab. Ele vestiu a carapuça e a imprensa caiu matando sobre a ex-ministra que voa relaxada e gozando. Tivesse ela pedido desculpas e admitido o erro, teria alguma esperança de reverter a situação. Ao contrário, insiste em dizer que não houve erro nenhum. Pior. Diz que não sabia de nada e que a decisão cabia aos marqueteiros. É assim que ela pretende governar a maior cidade do Hemisfério Sul? Sem controle? Sem saber? Não entendam errado. Não sou defensor da candidatura de Kassab. Ele apenas não cometeu, ainda, um erro tão grande. Se tivesse cometido, tenho certeza de que também não o admitiria. Não esqueçamos. Admitir erro é tabu.
Esta semana, uma das maiores lambanças da história policial brasileira teve um desfecho trágico em Santo André. Uma adolescente morreu e outra foi ferida. A vida dos moradores da região foi atormentada por quase uma semana. Prejuízos e traumas. Na entrevista coletiva, o comandante da operação insistiu em dizer que não cometeu nenhum erro. É tão difícil, aterrador, dilacerante, humilhante e incompreensível simplesmente dizer: “errei”? É uma alternativa tão melhor dizer que mandaria o próprio filho para a mira de um desequilibrado?
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Maio 20, 2008

Alguém mais viu a homenagem do nosso Ministro da Cultura ao milésimo programa do Faustão? Ele disse que tentou calcular quanto um programa semanal apresentado mil vezes correspondia em anos (eu disse ANOS). Depois de muito pensar, ele desistiu do cálculo.
Vamos ajudar nosso caro Ministro.
Sua Excelência, aqui vai a fórmula, diretamente das aulas de Didi Mocó: O ano tem 365 dias. Noves fora, cai um 7, escorregou um 9 ali atrás, cuidado com o 5 caindo…
Também desisto!
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Dezembro 3, 2007
Lesma sem troco (Paradus catracus) – Um molusco. Habita especialmente os ônibus, principalmente na região das catracas. Alterna momentos de agilidade (no momento de adentrar o veículo, empurrando e furando filas) com a mais profunda e irritante inação (quando chega em frente ao cobrador). É facilmente reconhecida por carregar bolsas de várias camadas. Em geral, guarda na menor e mais escondida a nota de 50 reais com a qual pretende pagar por sua passagem, além do bilhete único, que deixa para retirar somente depois de guardar o sofrido troco.
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Novembro 10, 2007
Tartaruga Corcunda (Tartarugus encostus)
Espécie muito difundida. Pode ser encontrada em todos os sistemas de transporte público de São Paulo, do metrô ao carrinho de mão. Embora existam inúmeras subespécies, são facilmente identificáveis pela corcunda volumosa que carregam, com a qual obstruem corredores e catracas.
Suas corcundas não possuem nenhum tipo de ligação nervosa, por isso, não sentem quando são tocadas ou, o mais comum, tocam outros seres. Um hábito bastante comum das tartarugas corcundas é o de apoiar sua corcova sobre outros animais da fauna do transporte público.
Possuem audição e senso prático altamente deficitários. Também são analfabetos funcionais. Esta é a razão por que sempre ignoram os avisos, escritos e sonoros, para que coloquem as malditas corcundas à frente do corpo ao ingressarem nos trens e ônibus.
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